Resenha IN de “O Fabuloso Destino de AméliePoulain” (Le Fabuleux Destin d’Amélie Poulain, 2001)

“Você não tem ossos de vidro, pode suportar os baques da vida”

A cantora Taylor Swift, no início de sua carreira, possuía uma ingenuidade genuína em suas canções, característica essa que condizia com a sua condição, de adulta em formação. Em uma de suas músicas, Sparks Fly, no refrão, a cantora diz “porque eu vejo, faíscas voam toda vez que você sorri”, e continua, dizendo “largue tudo agora/encontre-me em uma chuva torrencial/beije-me na calçada/leve embora dor”. Essa sensação, esse sentimento de “ver” faíscas ou, até mesmo, de sentir borboletas no estômago, é comumente associado à paixão, ao amor, mas sobretudo, ao amor na sua forma mais pura, mais autêntica.

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, filme dirigido por Jean Pierre Jeunet, na figura de sua protagonista, Amélie(interpretada por Audrey Tautou), é uma das melhores representações cinematográficas do sentimento acima descrito, a começar pela sua fotografia e paleta de cores. Desde o começo do filme, somos apresentados à duas cores básicas e antagônicas, o verde e o vermelho. 

Utiliza-se, no filme, um esquema de cores complementares, ou seja, são cores opostas no círculo cromático. Combina-se, portanto, uma cor quente com uma cor fria, gerando alto contraste, provocando um resultado vibrante. As duas cores, o verde e o vermelho, quando somadas, geralmente indicam conflito, mas em Amélie Poulain elas associam-se, ainda, ao amarelo, criando um clima mais ameno. 

As cores, nos filmes, são fundamentais para criar um clima ideal nas cenas. Elas tem o poder de manipular as nossas emoções sem que percebamos, servindo como uma ótima ferramenta de linguagem cinematográfica. Nesse sentido, a cor vermelha geralmente representa paixão ou sensualidade, enquanto a cor verde representa a inocência ou a imaturidade. Quando somadas, ou melhor, quando você junta a paixão com a inocência, o resultado é o amor. E assim como a Taylor Swift, Amélie é a representação do amor. 

Em termos narrativos, a escolha das cores é justificada pela perspectiva da história. O filme é contado sobre a ótica de Amélie, estamos vendo os acontecimentos da vida da personagem, bem como a maneira que ela reage à eles. E isso acontece porque acompanhamos a vida de Amélie desde o seu nascimento, nós vemos o crescimento da personagem diante da tela, bem como a sua relação conturbada com os pais, que lhe dão o mínimo de afeto, não permitem que ela vá para a escola e a cercam em uma redoma de proteção que se inverte quando a mãe de Amélie morre tragicamente. Nesse sentido, o verde é a cor do amor que desabrocha, então é comum que, no começo do filme, esse tom seja reforçado em detrimento do vermelho. A ingenuidade da personagem é evidenciada em diversos momentos da trama, mas há um momento na infância da personagem, onde em um conflito com o seu vizinho, após ganhar uma câmera fotográfica da mãe, Amélie passa a acreditar que é capaz de realizar tragédias apenas com o disparo do seu instrumento fotográfico. Quando descobre a verdade, ela decide se vingar do seu algoz, interrompendo a transmissão do jogo de futebol que ele assiste euforicamente. Mas, mesmo nessa espécie de “vingança”, os tons de verde são evidenciados, 

para demonstrar a inocência que há naquele ato da personagem. 

As cores evidenciam essas características de Amélie e a narrativa, em complementariedade, se desenvolve na mesma linha. Após a morte da Lady Diana, enquanto está no banheiro, Amélie encontra uma espécie de caixinha de lembranças, que estava escondida em um fundo falso de um azulejo. Ela, então, decide devolver a caixinha ao seu respectivo dono e, ao ver a felicidade de Bretodeau(interpretado por Maurice Bénichou), ela decide ajudar todas as pessoas ao seu redor. 

Outro ponto de destaque na trama diz respeito à cor amarela, mencionada no começo da resenha. Associada ao verde e ao vermelho, ela traduz a atitude de Amélie sobre a vida, ou seja, uma sensação otimista. E o vermelho, quando combinado ao verde e ao amarelo, representa felicidade e sorte. Junto ao tom de vermelho do filme, o amarelo traduz justamente essas sensações. 

Toda a carga otimista do filme é reforçado até mesmo pelo modo de retratar o suposto vilão, o quitandeiro (interpretado por UrbainCancelier), que mais aparenta ser um vilão de desenho animado, justamente por ser rude com o seu funcionário, Lucien (interpretado por Jamel Debbouze), por quem Amélienutre um carinho especial. Nesse sentido, prezando pelo lado cartunesco e irrealista do filme, temos diversos elementos gráficos que, juntamente com as cores, reforçam o conto de fadas, o mundo fantástico de Amélie que, tal qual Taylor Swift, espera pela chegada do seu príncipe encantado. 

Em termos técnicos, o filme conta com inúmeros planos italianos, focando no rosto dos personagens, reforçando as emoções que estão sendo passadas por meio das cores. Nesse sentido, vemos todo o amor de Amélie pela vida sendo transmitido de uma maneira ampla, e massificando com a personagem quebrando a quarta parede para conversar com o telespectador. O arranjo das cores é um artifício poderoso para a criação da narrativa e, somado à esses dois fatores, provoca uma imersão do público para o filme. 

Quanto à trilha sonora, o filme é quase que integralmente sonoro, seja por sons de pássaros, das canções, das falas dos personagens, exceto por um momento, quando Amélie e o seu interesse amoroso, Nino (interpretado por Mathieu Kassovitz) têm o seu primeiro encontro amoroso. Nesse momento, é quase impossível não estar imerso naquele momento íntimo com eles, devido ao silêncio que se faz. Toda a composição cênica converge para que o alvorecer de Amélie, ao encontrar o seu amado, seja o mais imersivo possível, tal qual a sensação de ver faíscas voando toda vez que sua paixão sorri, ou de sentir borboletas no estômago, quando o verde dá lugar ao vermelho, e a paixão se torna mais intensa, com todo o seu esplendor. 

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain é um filme que permite uma leitura imersiva em um mundo de fantasia, por meio de cores opostas que transmitem uma sensação de otimismo e positividade, de uma mulher que acredita que o amor pode mudar tudo. 

Ficha Técnica: 

O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001) 

Duração: 122 minutos

Gênero: Comédia, Romance

Direção: Jean-Pierre Jeunet

Direção de Fotografia: Bruno Dellbonnel

Estrelando: Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Rufus e outros. 

Equipe Canal In

Repórter: Marco Dias

Editor: Ricardo Henrique

Fotos: divulgação

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