SÉRIE INTREVISTA: ESCRITOR EDGARD ABBEHUSEN ABRE O JOGO SOBRE SUA VIDA PESSOAL E PROFISSIONAL: “PRA ESCREVER EU SÓ PRECISO DA MADRUGADA”

 

O escritor baiano Edgard Abbehusen experimenta a doce e agitada ascensão da sua carreira. Famoso por seus textos que traduzem em poucas palavras enigmas sentimentais e existenciais vividos por muitas pessoas, o autor do livro “Quem tem como me amar não me perde em nada” arrasta uma legião de seguidores nas redes sociais, mas dispensa o título de digital influencer. Vencendo a timidez aos 30 anos, Edgard não economiza adjetivos ao se referir a Muritiba, cidade em que foi criado, e dizer com gosto que é filho do recôncavo.

Forte presença no campo digital, o escritor quer também conquistar terreno no mundo real. Prestes a lançar seu segundo livro, Edgard está cheio de projetos para 2019 e contou para o Canal IN detalhes sobre sua vida pessoal.

Esta é a série INtrevista e você confere o conteúdo completo abaixo:

Canal IN: Conta como tudo começou. Seu gosto pela leitura e escrita vem desde a infância ou veio adquirindo isso ao longo do tempo?

Edgard Abbehusen: Sempre gostei de ler muito. Desde criança qualquer trocado que meus pais me davam eu corria pra banca de revistas e me divertia com histórias em quadrinhos, isso com 6, 7 anos. E isso foi ajudando a formar o leitor. Já com 11 anos, através de um abaixo–assinado, minha escola passou a receber alunos do fundamental e ensino médio, e com isso foi inaugurada uma biblioteca e eu fui um dos que ajudaram a arrumar o espaço. Acabei me deparando com o livro Quincas Berro D’água de Jorge Amado e levei pra casa e comecei a lê-lo e depois continuei outras obras do escritor. Na escola sempre estava envolvido em trabalhos literários, era roteirista nos trabalhos escolares ,estava a frente nas apresentações de seminários, direção de peças, feira de ciências etc.

C.I.: Como a cidade de Muritiba, onde você foi criado, contribuiu para sua percepção poética?

E.A.: Muritiba é um berço de inspiração. Nasci em São Félix e fui criado lá a minha vida inteira. Ashistórias que vem de lá são referências pra mim, tem muito da cidade no meu trabalho, arrisco a dizer quase tudo que eu escrevo tem um pouco de Muritiba.

C.I.: Por que veio para Salvador?

E.A.: Vim pra cá exatamente no dia 6 de janeiro de 2019 e não consegui mais voltar (risos). Já estou procurando apartamento, me adaptando a capital. Não estava nos meus planos vim pra Salvador, queria ficar em Muritiba, era meu desejo ficar lá, criar uma relação da minha obra com a cidade, mas hoje, infelizmente, o trabalho necessita que eu estejapelo menos por enquanto, fora de lá. Aqui em Salvador tem muita coisa acontecendo que é interessante pra mim, tem a questão de deslocamento também, mas a minha intenção é ficar aqui por um momento e voltar para Muritiba pra terminar minha missão.

C.I.: Você acumula mais de meio milhão de seguidores no Instagram, como aconteceu esse boom?

E.A.:Tudo começou por causa de um trabalho acadêmico. Cursava jornalismo na UFRB e a professora pediu que analisássemos o Instagramcomo uma rede que é voltada para fotos que estava também abrigando escritores. Ela me sugeriu que criasse um perfil pra divulgar meus textos, e assim fiz, em maio de 2016 criei a página, mas com um pé atrás. Acabou que a professora foi morar em outro país e eu continuei alimentando o perfil e com dez meses cheguei a marca de 100 mil seguidores. Tive uma impulsionada quando alguns artistas publicaram meus textos, pra se ter uma ideia, quando a cantora Marília Mendonça postou uma frase minha eu ganhei 20 mil seguidores em meia hora, e foi um crescimento muito rápido desde então.

C.I.: Como você se intitula: Escritor ou poeta?

E.A.: Até o lançamento do meu primeiro livro em 2017Quem Tem Como Me Amar Não Me Perde Em Nada”, eu não me denominava escritor. Porque, pra mim, escritor é aquele que tem um livro ou uma contribuição física. Eu respeito muito o trabalho da galera que trabalha na internet, mas é uma coisa minha, dizia pra mim sempre: “eu ainda não sou um escritor, só vou me enxergar como tal quando tiver um livro publicado”. Antes disso eu era apenas um estudante de jornalismo.

C.I.: Quando se formou?

E.A.: Eu tranquei a faculdade.

C.I.: Por que?

E.A.: Porque faltando um ano pra concluir o curso veio a página no Instagram, eventos, palestras, livro, viagens com a editora pra divulgação do livro, como não estava conseguindo conciliar a vida que estava levando com a faculdade, decidi trancar. Mas eu pretendo finalizar, um dos meus projetos aqui em Salvador é justamente esse.

C.I.: Conta um pouco sobre seu livro. O processo de criação e como o publico esta reagindo.

E.A.: Eu recebi o convite de uma editora do Rio de Janeiro que estava interessada em financiar uma obra minha. Foi uma surpresa porque eu conhecia outros escritores que já estavam tentando há anos isso, fiquei com um pouco de medo, mas aceitei o desafio. O livro acabou me dando oportunidades de participar de feiras, palestras, e identificamos que tenho um público mais velho. O tamanho do livro foi reduzido bastante, de 270 páginas para 192, justamente para adequar ao perfil de público que eu achava que tinha que são os jovens e adolescentes. O lançamento no Rio de Janeiro foi incrível! Vi na fila adultos e pessoas da terceira idade, em Minas Gerais teve uma senhora que comprou 50 livros, Em São Paulo as pessoas estavam saindo do trabalho pra ir ao lançamento. Isso acabou me obrigando a mudar a linguagem, hoje estou mais solto, reduzi o número de postagens por dia e saindo mais do âmbito virtual.

C.I.: Inicialmente você mantinha sua identidade em anonimato, por que tomou essa decisão?

E.A.: Na verdade não era um anonimato total. Eu assinava os textos, mas não tinha nenhuma aparição, inclusive o perfil era o Fotocitando, uma marca que criei para expor meus textos. Eu enxergava aquilo como um trabalho acadêmico, então não via necessidade de revelar uma identidade. Desde que fechei o contrato com a editora ela veio amadurecendo a ideia de fortalecer meu nome como uma marca, eu resisti um pouco porque não queria que minha imagem fosse maior que meus textos, mas chegou um momento que tive que fazer essa transição e explicar aos seguidores que tinha que assumir uma identidade.  

C.I.: O Instagram é uma rede majoritariamente visual, as pessoas estão mais interessadas em publicar e dar like em fotos do que ler textos, e sua página foi tão bem sucedida que quebrou essa regra. A que você atribui esse sucesso?

E.A.: O perfil foi criado pra atender essa demanda. Na Europa esse movimento de escritores da literatura contemporânea conquistarem espaço na internet é muito forte e tem impactado no mercado editorial. Antes pra chegar à editora, o escritor tinha que percorrer um longo caminho, hoje as editoras estão olhando pra galera que escreve na internet de maneira comercial, porque os seguidores que consomem seus textos é um potencial comprador de um livro seu. E eu entrei no momento dessa transição, talvez se eu demorasse mais um ano pra criar o perfil eu não teria a ascensão que eu tive, porque tudo na internet muda.

C.I.: O que você está colhendo com tanta notoriedade no Instagram?

E.A.: Diferente do Youtube, o instagram não trazretornos financeiros, você pode ter milhões de seguidores, mas isso não é convertido em dinheiro, e eu precisava transformar isso em renda porque eu produzo todos os dias pra rede. Eu larguei tudo, fechei todos os meus contratos da minha empresa de assessoria de comunicação, então já que estou me dedicando ao Instagram 100%, eu preciso ter um retorno, porque viver de vendas de livros nesse país é difícil. Então eu transformei minha empresa em produção de conteúdos afetivos além de algumas parcerias com marcas.

C.I.: Você já chegou a flertar com a carreira política, o que lhe motivou a seguir esse caminho?

E.A.: Eu fui candidato a vereador em Muritiba e graças a Deus perdi por 50 votos (risos)

C.I.: Você agradece o fato de ser derrotado na eleição?

E.A.: Hoje sim. A política pra mim nunca foi um sonho e eu não venho de uma família de políticos. O que aconteceu comigo foi que, na época, com 22 anos, fui assessor do prefeito e fiquei bastante conhecido na cidade por sempre acompanhá-lo. E por incentivo dele me candidatei a vereador, só que o mesmo que me ajudou, acabou me prejudicando no percurso quando viu que eu estava crescendo nacampanha, chegando a bater o primeiro lugar nas pesquisas, mas a melhor coisa que me aconteceu foi perder a política. Até hoje recebo convites pra atuar na política, fui chamado pra me candidatar como prefeito de Muritiba, mas rejeitei.

C.I.: Conta como funciona o seu processo de criação. Tem algum ritual, horário preferido, ambiente?

E.A.: Pra escrever eu só preciso da madrugada. Edo notebook. A manhã pra mim é praticamente inativa, eu durmo das 07:00 hs as 12:00 hs, no início foi muito difícil aceitar isso porque a sociedade é totalmente comercial, então se você não acorda cedo você é vagabundo, e minha mãe também pensava dessa forma. Hoje eu digo com mais tranquilidade que acordei tarde porque estava trabalhando durante a madrugada.

C.I.: Muitos dos seus textos falam de autoestima, você acha que cada vez mais as pessoas precisam que alguém diga que ela é maravilhosa para validar isso?

E.A.: Como diz Umberto Eco:“A internet deu voz aos imbecis”. Existem pessoas nessa ferramenta dispostas a agredir o outro. As pessoas estão cada vez mais presas em suas tarefas diárias e acabam esquecendo-se de olhar pra si. Eu recebo centenas de mensagens de pessoas que após um texto simples vem me agradecer, relatam que estavam prestes a fazer uma besteira. Acho que é cada vez maior a necessidade da população receber acompanhamento psicológico e terapêutico, eu já fiz em um período, então quando as pessoas me perguntam o que devem fazer eu indico esses tratamentos, porque eu sou escritor, não tenho autoridade para ajudar ninguém dessa forma.

C.I.: A maior parte do seu público é feminino, como você, sendo homem, escreve com tanta propriedade coisas que cercam o imaginário e realidade da mulher?

E.A.: É uma questão de referência. Eu sempre fui cercado por mulheres, após meu pai falecer fui criado por minha mãe e minhas irmãs, convivo com a família da minha namorada que é composta por mulheres, tenho muitas amigas, tenho uma filha, então sempre estou inserido no ambiente feminino. 91% dos meus seguidores são formados pormulheres. Sou fã de Chico Buarque, acho muito bonita a forma como Chico fala como se fosse uma mulher, então eu passei a escrever também com o eu lírico feminino, porque tenho que falar para o meu público. Muitos escritores dizem que só escrevem o que sentem, mas eu acho que literatura é falar sobre absolutamente tudo e todos. Então, apesar de não escrever necessariamente o que sinto, eu sinto o que escrevo.

C.I.: Você foi pai muito cedo, como essa responsabilidade mudou sua vida?

E.A.: Total, antes de Letícia eu era um idiota (risos). Quando ela nasceu eu tinha 18 anos, vim pra Salvador trabalhar sem ajuda de ninguém, passei pela turbulência da separação com a mãe dela. Eu não romantizo o fato de ser pai cedo, porque ralei muito pra chegar até onde cheguei. Hoje a guarda dela é minha, tive que montar uma estrutura para criar uma filha mulher e mudou completamente minha vida de forma positiva.

C.I.: E quais são os planos para o futuro? Já tem o segundo livro no forno?

E.A.: O segundo livro já ta pronto, “O que tiver de ser, Amar”, deve ser lançado até dia 27 de abril aqui em Salvador no Shopping Bela Vista, depois vou pra Belo Horizonte. Em maio vou participar de uma feira literária em Praia do Forte, depois do São João viajo em turnê pelo Brasil. Uma das novidades é um canal no Youtube que será criado, pretendo abordar diversos temas de maneira leve, trazer especialista como psicólogos e terapeutas sexuais pra falar com mais propriedade de assuntos relacionados à área. Tenho objetivo em ser colunista de jornal, já vislumbro um programa diário na rádio, já esta sendo discutido isso e tem tudo pra dar certo. Estou confiante!

 

 

Equipe Canal In

Repórter Lucas Gomes

Editor Ricardo Henrique

Fotos Canal In

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