Resenha IN: Netflix – Documentário Democracia em Vertigem

Esse é um país que vai pra frente;

Ô Ô Ô Ô Ô;

Um país de gente unida e tão contente.

Ô Ô Ô Ô Ô;

Esse é um país que canta, trabalha e se agiganta.

É o Brasil do nosso amoooor!

Eu te amo, Meu Brasil, Eu te amo;

Meu coração, É verde, Amarelo, Branco, Azul anil;

Eu te amo, meu Brasil, Eu te amo;

Ninguém segura

A juventude do Brasil!

A canção acima era entoada durante a ditadura militar. Minha mãe relata que, ao ouvir essa música, acreditava na possibilidade de um futuro melhor, de um país que aprenderia com os seus erros e daria melhores oportunidades para as gerações futuras. Mas, como diria Bruce Wayne em Batman v Superman: A Origem da Justiça (2016): “Que mentira linda!”.

Vertigem. Sensação de perda de equilíbrio. O medo de altura pode ser um sintoma da vertigem. A queda da última instituição realmente democrática é algo que provoca vertigem coletiva.

Alfred Hitchcock, em 1958, lançava seu filme Um Corpo que Cai (Vertigo), no qual o protagonista sofre de um irracional medo de altura. Ao se envolver com a mulher de um amigo, ele começa a desafiar os próprios medos. Mas é a traição o sentimento predominante no filme, que torna a sensação de vertigem ainda mais perigosa. Acreditar em alguém e perceber que tudo aquilo não passava de uma simples mentira (apesar da perspectiva misógina de Hitchcock).

Democracia em Vertigem (2019), documentário dirigido por Petra Costa, disponível no catálogo da Netflix, lançado no dia 19 de junho deste ano, retrata, de forma resumida, o processo de ruptura das recentes instituições democráticas brasileiras, culminando no processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, com a prisão do presidente Lula e a eleição de Jair Bolsonaro para o cargo mais importante da nação.

Com o intuito de ser um resumo para estrangeiros e brasileiros leigos/alheios em política (uma vez que, tudo o que é relatado no documentário foi amplamente divulgado pela mídia e fez parte do cotidiano de quem acompanha, ainda que minimamente, a política brasileira), o filme se inicia com uma passagem em inglês, que representa de maneira precisa como se deu a repercussão na imprensa internacional do que aconteceu no Brasil: Um golpe enorme para um presidente eleito duas vezes, saindo com taxa de aprovação de mais de 80%, e já liderando as pesquisas para as eleições do próximo ano.

A diretora Petra é, também, narradora do filme e essa narração se dá em off, com um tom de melancolia que se estende por toda a obra, provocando uma sensação de desesperança para o futuro. Por ter uma relação direta com o período da ditadura militar (abordado brevemente no documentário), e principalmente com a democracia brasileira (Petra e o surgimento da democracia têm praticamente a mesma idade), a perspectiva se torna mais subjetiva do que qualquer coisa.

A linguagem poética do documentário é outro ponto de destaque. Petra faz a escolha pelo tom bucólico ao transformar os atores políticos em vítimas de um sistema enraizado de corrupção estrutural. Se o autoritarismo sempre se fez presente no Brasil, a corrupção esteve associada o tempo todo. Os grandes banqueiros, empresários, as elites do país: em resumo, controle da nação reside na economia que, vinculada à corrupção, torna a nossa democracia em um mero sonho efêmero.

O documentário traça uma linha do tempo entre os acontecimentos que, na visão da diretora, teriam ocasionado o descrédito da governança do PT. Lula, que surgiu como a grande esperança dos trabalhadores e dos mais humildes, ao chegar ao poder, e com a necessidade de se aliar com bancadas partidárias mais influentes e, consequentemente, mais poderosas, vendeu sua alma ao diabo (nesse caso, ao vampiro do PMDB). Se Jesus viesse pro Brasil, teria que fazer aliança até com Judas.” Mas foi justamente essa aliança que desencadeou uma série de eventos que puseram a democracia em xeque.

No documentário, a imagética cena da posse de Dilma Rousseff com a presença de Lula e sua esposa, a finada Marisa Letícia, bem como Michel Temer, fala por si só. O entrelaçamento dos dedos, com a puxada das mãos do Temer, que à todo instante parece querer soltá-las ilustra o precipício relatado por Petra e diz muito mais sobre a maneira como aquela aliança tinha se formado (os reais objetivos do PMDB e, em especial, do vampirão).

A ex-presidente Dilma Rousseff ganha um espaço de destaque na trama, uma vez que a sua história e a história da mãe de Petra se convergem. Vítimas de tortura no período da ditadura militar, as duas carregam as marcas psicológicas do abuso e da violência.

“A arte de resistir à tortura é pensar assim: É só mais um minuto. Se você pensar que é mais cinco, ou mais vinte, é muito difícil de aguentar. Então você pensa: mais um minuto, mais dois … e vai se enganando por esses minutos afora, tentando superar algo que é inerentemente humano, que é a dor.” – Dilma Rousseff

Especulado entre os possíveis indicados (e, quem sabe, vencedores) ao Oscar, Democracia em Vertigem traz um melancólico (e por vezes, choroso em demasia) da política brasileira nos últimos anos. Se comparado com a outra produção original Netflix que aborda o tema (a fraquíssima série O Mecanismo), a obra possui um viés mais elucidativo (até por não ser ficcional) e menos direcionado (claro que há um viés político e ideológico, mas em momento algum os fatos são inventados ou “maquiados”). Se você tiver que escolher entre uma das produções para assistir, fique com Democracia em Vertigem.

Nota: 8,5/10

Ficha Técnica:

Democracia em Vertigem (The Edge of Democracy, 2019)

Duração: 121 minutos

Gênero: Documentário

Diretora: Petra Costa

Estrelando: Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva, Marisa Letícia Lula da Silva e outros.

Lançamento mundial: 19 de junho de 2019

Disponível na Netflix

 

Equipe Canal In

Repórter /  Resenha: Marco Dias 

Editor: Ricardo Henrique 

Fotos: divulgação 

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