Resenha do filme After

Não há nada mais subjetivo do que o amor.

 

A sétima arte sempre retratou o amor como o sentimento máximo, a maior realização que um ser humano pode alcançar. Amar é retratar o outro da forma mais genuína e bela o possível. Creio que esse seja o apelo cinematográfico por trás do amor. Expor os detalhes mais comezinhos de um sentimento tão subjetivo é algo pode provocar as mais diversas reações no público (e trazer o retorno financeiro esperado).

No caso do amor juvenil, o retrato se torna ainda mais interessante, pois o sentimento está, ao mesmo tempo, em desenvolvimento (no processo de amadurecimento do psicológico de um jovem) e na sua forma mais intensa (todas as sensações estão à flor da pele, você sente tudo). Quando você tem 15 anos e alguém diz que te ama, você acredita, pois aquilo é tudo o que você tem – ou pensa que tem.

Nesse contexto, falar do filme After não é uma tarefa fácil. Considerando que a obra original é proveniente de uma fanfic da banda One Direction, que posteriormente resultou em uma franquia de livros, analisar apenas o filme é correr o risco de não retratar o universo como um todo. Falamos de uma obra ficcional que retrata o amor e cujo público já está consolidado. Porém, um filme precisa funcionar independente de qualquer coisa, como uma obra isolada em seu meio, como uma obra feita para o cinema e que deve ser compreendida por este público, e não somente pelos fãs dos livros.

O filme se inicia com a protagonista Tessa (interpretada por Josephine Langford) indo para a faculdade, acompanhada por sua mãe Carol (interpretada por Selma Blair) e por seu namorado, Noah (interpretado por Dylan Arnold). Eles a acompanham até a porta do seu quarto no dormitório da faculdade. Ao entrar, Tessa se depara com Molly (interpretada por Inanna Sarkis), uma garota de cabelos pretos com mechas rosas, piercings no nariz, roupas justas e com um tom de fala que, em conjunto com o seu olhar, deveria causar desconforto (mas só consegue transmitir estranheza).

Assim como acontece na maioria dos filmes voltados para o público adolescente, Tessa segue com a sua vida normal antes de encontrar o seu par perfeito. Ela, portanto, assiste às aulas, conversa com o seu amigo da faculdade Landon (interpretado por Shane Paul McGhie) e tenta se enturmar na medida do possível – uma vez que a sua timidez dificulta a sua expressão perante os demais.

Em mais um dia na sua rotina de universitária, Tessa, após sair do banho, percebe que alguém derrubou suas roupalimpas no chão, deixando-as encharcadas. Sem opção, ela se enrola na toalha e segue para o quarto. Logo após entrar no quarto, caminha em direção ao guarda-roupa e o abre. Através do reflexo do espelho, percebe a presença de um garoto desconhecido, sentado na cama de Molly, lendo um livro (O Grande Gatsby). Ela se assusta, pergunta o que ele está fazendo ali e ouve uma resposta evasiva. Pede que se retire para trocar de roupa e ele a responde: “deixe de ser tão convencida, não estou olhando”. Esse garoto, com um tom misterioso, estereótipo de bad boy é o interesse amoroso da protagonista, Hardin (interpretado por Herodes Fiennes Tiffin).

A estrutura do roteiro, portanto, é bem simples: uma protagonista ingênua que encontra na vida acadêmica uma forma de encontrar sua verdadeira identidade. E, nesse percurso, ela se apaixona por um cara misterioso, um bad boy sem motivo aparente (cujo passado será – ou não – explicado mais adiante). Essa é a história resumida de After.

Durante a experiência com After, um filme se fez presente em minha mente de forma recorrente: 10 Coisas que eu Odeio em Você (10 Things I Hate About You, 1999). Por possuírem a mesma estrutura narrativa, acredito que a comparação é inevitável, dadas as devidas proporções.

Em After, a história dos protagonistas é desenvolvida por intermédio de suportes narrativos inseridos no roteiro. Os personagens secundários são abandonados em detrimento de Tessa e Hardin, o que, à princípio, poderia ser relevado. Contudo, a química entre os dois não funciona. Você não consegue comprar a ideia de que há entre eles uma tensão sexual, coisa que é explorada em todo o material promocional do filme.

Comparando After com 10 Coisas que eu Odeio em Você, extraímos as seguintes visões: se no primeiro, a história de amor se desenvolve com base em uma aposta feita durante um jogo de Verdade ou Consequência (informação que só é revelada para o espectador no clímax do filme), no segundo, sabemos da aposta desde o começo (e a partir daí vemos a construção do sentimento do personagem do Heath Ledger pela Julia Styles). A ocultação dessa informação em After faz diferença, pois põe em questão a credibilidade do sentimento de Hardin pela Tessa.

Quando digo que o roteiro se estrutura em suportes narrativos, refiro-me justamente aos elementos mal explorados pelo filme. Considerando que o final é previsível, pois trata-se de um romance juvenil, a construção da história, da jornada do casal é o que mais importa nesse gênero. As subjetividades do amor têm de estar presentes. E, nesse sentido, apesar de não haver uma química evidente entre os protagonistas, os atores se esforçam para entregar o melhor resultado possível, o que motiva o público a continuar assistindo o filme. A cena onde o casal corre pela biblioteca, fugindo do segurança, aqueceu meu coração e me deixou com um sorriso de canto de rosto.

Por outro lado, After está repleto de diálogos clichê do gênero. Frases como “eu nunca faria nada para magoar você”, ou “isso foi antes de te conhecer”, e até mesmo “eu não sei o que seria de mim sem você” fazem parte da trama de forma recorrente. Nesse quesito, há uma máxima no cinema que explicita “não diga, mostre”, que deveria ter sido aplicada. É muito mais impactante quando a história expõe os fatos, ao invés de narrá-los.

After é um entretenimento para casais e amantes de filmes do gênero. Todos os elementos de um romance clássico estão presentes e, apesar dos problemas na narrativa, você acaba torcendo para que os dois se resolvam e fiquem juntos, pois, como diz a música da banda Paramore, “you are the only exception”. Por alguns momentos, nos vemos no papel de Tessa e imaginamos que o Hardin é a nossa única exceção.

 

NOTA: 6/10

After (2019)

Drama, Romance

106 min

Dirigido por: Jenny Gage

Roteiro adaptado por: Susan McMartin

Atores: Josephine Langford, Hero Fiennes Tiffin, Selma Blair, Inanna Sarkis e outros.

 

 

Equipe Canal In

Resenha Marco Dias

Editor Ricardo Henrique

Fotos divulgação

Compartilhe essa postagem

Sem comentários

Acrescente o seu