Resenha do Filme Loja de Unicórnios (Unicorn Store)



Se puder ser adulto, evite.

Ramones, a banda norte-americana de punk rock, popular nos anos 70, possui entre os seus hits, uma música que reflete a sensação que a maioria jovens sente quando experimenta o processo de transição para a vida adulta: o medo e a insegurança que o futuro lhes reserva. I don’t want to grow up (Eu não quero crescer, em tradução literal) é um reflexo da frustração por perceber que ser adulto não é a melhor coisa do mundo. E é isso que Loja de Unicórnios, filme original Netflix, lançado em abril deste ano, tenta traduzir, em seus noventa minutos de duração.

 

O filme se inicia com filmagens pessoais da atriz norte-americana Brie Larson, quando criança (vantagens de ser a diretora/produtora/protagonista). Ela interpreta uma personagem chamada Kit, que acabou de ser dispensada da faculdade de artes, após ser reprovada na apresentação de um trabalho (uma mistura de cores com glitter).

 

Tendo que recomeçar a sua vida, completamente desesperançosa, Kit ainda precisa lidar com a pressão dos seus pais, Gladys e Gene, interpretados respectivamente por Joan Cusack e Bradley Whitford. Eles a comparam, o tempo todo, ao seu vizinho Kevin, interpretado por Karan Soni, um garoto da sua idade, que trabalha como uma espécie de conselheiro.

 

Após perder seu quarto (que virou uma academia para os seus pais) e seu rumo na vida, Kit é acometida por uma depressão, que a leva a passar o dia inteiro deitada no sofá, assistindo programas de modo aleatório na televisão (zapeando).


Durante as suas zapeadas, Kit vê um comercial que oferece a possibilidade de um emprego fácil, com o slogan “O sucesso está em todo lugar! ” – exceto em sua vida, pensa.

 

Em sua percepção, seus pais consideram sua dedicação à arte como uma experiência momentânea. Durante o jantar, seus pais a dizem que agora que essa fase passou, ela precisa dar um novo rumo a sua vida, procurar um caminho a seguir, assim como o Kevin fez. Kit, revoltada, dispara: “Por que vocês não adotam o Kevin? Aí não precisam ter vergonha dos meus fracassos”. E sai em disparada para o seu novo quarto, o porão.

 

Vestida de princesa, ela decide ligar para o número do comercial de TV visto mais cedo. Consegue uma oportunidade e resolve, então, “abandonar” a roupa infantil, aderindo à um visual mais formal, composto por um terno verde. Em sua jornada como adulta, Kit começa a trabalhar como temporária. Sua função é apenas uma: tirar cópias. E, durante o seu trabalho, acaba conhecendo o Vice-Presidente da empresa, que possui um comportamento estranho, um tanto quanto “afetuoso” demais com as mulheres da companhia.

 

Porém, a fase de adulta de Kit sofre uma grande mudança quando ela recebe um convite para ir até A Loja, onde acaba conhecendo O Vendedor, interpretado por Samuel L. Jackson. Nesse local, o vendedor lhe faz uma proposta, a de vender aquilo que ela mais precisa e quer: um unicórnio. E a partir desse ponto, o filme se desenrola.

 

Em uma primeira camada de interpretação do filme, há apenas uma narrativa fantasiosa. Uma garota que não quer assimilar o seu crescimento, apegando-se ao maior desejo que teve em sua infância, o de possuir um unicórnio. Há momentos no filme que reforçam essa interpretação mais simplista, a exemplo da cena da fogueira, onde acontece o Círculo da Verdade e Kit fala: “Na infância, nunca tive um bichinho. E chega um momento em que você quer mais do que falar com seus bichos de pelúcia. Você quer amor. Mas não o amor normal, que se desgasta, muda ou desaparece. Aquele amor especial. Amor incondicional. Sou adulta agora. E tomei uma decisão. Vou comprar um unicórnio”. Nota-se aqui, portanto, que na visão de uma criança, tornar-se adulto é saciar todas as suas vontades.

 

Por outro lado, em uma análise mais gnóstica – a qual me filio – o unicórnio é um elemento metafórico para representar inúmeros símbolos: a infância de Kit, o seu relacionamento conturbado com os pais, a necessidade em se aceitar como adulta e o desejo em não ser vista como um fracasso.

 

Há, em Kit, a síndrome do Peter Pan. Ela não quer crescer, amadurecer, assumir as responsabilidades da vida adulta, pois tem medo de fracassar, de continuar sendo uma decepção para os seus pais (concepção essa, que só existe em sua mente). Por receio, Kit não arrisca, seja no campo profissional ou no afetivo. A segurança que a infância lhe traz é o que a mantém apegada à ideia de ter um unicórnio. Conquistar o unicórnio é não ter que abrir mão de tudo o que lhe dá estabilidade (ainda que cause sua infelicidade).
O unicórnio representa também o amor próprio. Kit tem a constante necessidade de ouvir que os pais a aprovam, que ela não é um fracasso. Aceitar o unicórnio é entender que o amor tem que vir primeiro dela mesma, pois para cuidar dele é preciso dedicação e um ambiente saudável (uma mente saudável).

 

O figurino de Kit é um espetáculo à parte. Se a Brie Larson não convence ao interpretar uma jovem, por volta dos 20 – 23 anos, o esforço realizado para que ela pareça mais jovem deve ser elogiado. Acaba sendo ridículo no final, mas é uma oportunidade cômica indireta proporcionada pelo filme. Associado a isso, todas as conversas que Kit tem com os seus pais, na base da gritaria, reforçam a esdrúxula tentativa de fazer crível a criança Larson.

 

Como diretora, a Brie Larson comanda bem o elenco (principalmente os personagens que contracenam com ela, em especial Samuel L. Jackson e Mamoudou Athie) e as locações, utilizando dos espaços da melhor maneira possível, mas o roteiro não a deixa ir mais longe, a arriscar.

 

Acerca do roteiro, há nele um problema grave de escolha narrativa. Fazendo um paralelo metalinguístico, os medos que Kit tem em relação a si mesma são os mesmos medos que o roteiro tem em relação à escolha do melhor desfecho. Há uma tentativa falha de ambiguidade entre elementos fantasiosos e subtextos interpretativos. Por não escolher qual dos dois deveria prevalecer, a estrutura acaba ficando confusa. Por vezes, duvidei das minhas teorias sobre o entendimento que dei ao unicórnio – seria ele apenas um elemento fantasioso ou uma metáfora? Prefiro acreditar na segunda opção.

 

Os demais aspectos técnicos do filme não revelam nada muito surpreendente. Há um cuidado estético na fotografia, a trilha sonora possui traços de canções infantis (como músicas de caixinhas de bailarina) e o ritmo acelerado ajuda a evitar a monotonia.

 

Loja de Unicórnios é um filme que se destaca pela premissa fantasiosa que proporciona uma reflexão sobre as dificuldades do processo de transição para a vida adulta. Em seu primeiro filme como diretora, a Brie Larson prefere não arriscar muito, fazendo o básico. Mas, conforme o próprio filme menciona em dado momento, “a coisa mais adulta que você pode fazer é falhar no que gosta”.



NOTA: 6,5/10
Loja de Unicórnios (Unicorn Store)
Duração: 92 min
Gênero: Comédia/Drama/Fantasia
Dirigido por: Brie Larson
Roteiro: Samantha McIntyre
Estrelando: Brie Larson, Samuel L. Jackson, Joan Cusack, Bradley Whitford, Mamoudou Athie e ouros.

 

Repórter / Resenha: Marco Dias

Editor Ricardo Henrique

Fotos divulgação

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