Resenha do Filme Ugly Dolls



Filmes de animação possuem um objetivo muito simples e bem definido: entreter o seu público alvo, sem a obrigação de conduzir à grandes reflexões (vide Minions). A trama pode conter um subtexto que promova o debate de algumas questões, mas em se tratando de crianças como o espectador imediato desse conteúdo, essa obrigação é secundária. Portanto, exigir um enredo intrincado, desenvolvido para além do texto, com metáforas visuais e um roteiro repleto de subjetivismo é querer demais, ainda que isso não seja impossível (vide Divertida Mente).

 

O que um filme de animação certamente precisa conter é uma estrutura de três atos de roteiro muito bem definida. E UglyDolls, animação musical, na sua tentativa de emular uma versão de Toy Story dos brinquedos descartados, possui esses três atos bem definidos, promovendo um filme sem surpresas.

 

O filme começa com a apresentação para o espectador da “cidade” de Uglyville, o local onde os brinquedos que tiveram algum problema durante a sua produção acabam indo parar após serem descartados. O ritmo nesse começo é acelerado, com um musical de abertura, onde somos rapidamente introduzidos à protagonista, Moxy (dublada pela cantora Kelly Clarkson) à cidade e aos personagens que completam o grupo.

 

O primeiro ato, aqui, já é perfeitamente delimitado, com o incidente incitante que reside no desejo de Moxy em ir atrás da criança à qual ela estaria destinada a alegrar e ser companheira no mundo real. Com essa motivação, Moxy, juntamente com o Uglydog (dublado pelo cantor Pitbull), o Lucky Bat (Leehom Wang), a Wage (Wanda Sykes) e o Babo (Gabriel Iglesias) seguem para a única saída possível da Uglyville, uma espécie de tubulação por onde os brinquedos são descartados.

 

Perpassadas as “provações”, os personagens conseguem sair da Uglyville e chegam até o Instituto da Perfeição, local onde os brinquedos são moldados para seguirem o padrão “Barbie/Ken” de perfeição estética. Neste lugar, aprendemos que a maior experiência que um brinquedo pode viver é a de pertencer a um dono, à uma criança, e proporcioná-la o máximo de alegria que puder.

 

O responsável pelo Instituto da Perfeição, e antagonista da história, chama-se Lou (dublado pelo ator e cantor Nick Jonas). Venerado pelos demais brinquedos, ele realiza uma espécie de show de boas-vindas para os novos moradores, entoando o discurso de que é preciso ser perfeito para se tornar um bom brinquedo. As imperfeições são motivo de descaso, de ridicularização, de deboche. Para ele, a beleza leva a perfeição e o menor dos defeitos já é suficiente para considerar um brinquedo inapto a ir para uma criança.

 

Ao ver Moxy e os outros, Lou automaticamente os menospreza, destratando-os de tal modo que os faz desistirem do Instituto da Perfeição. Contudo, Moxy, relutante, tem a seguinte decisão: a de permanecer no Instituto, custe o que custar.

 

Após a decisão de Moxy de continuar no Instituto, o segundo ato do filme se inicia com embates entre Lou e os Uglydolls, na tentativa de tornar árduo o suficiente o processo de seleção para estes. Nesse momento da trama, há uma clara menção à um possível passado de Lou envolvendo os Uglydolls ou a Uglyville – o que vem a ser desvendado mais adiante –, mas a narrativa é interrompida.

 

O ponto de virada do segundo ato, contudo, reside na revelação feita pelo prefeito da cidade de Uglyville, Ox (dublado por Blake Shelton), do porque os Uglydolls não são acolhidos por crianças, bem como o real motivo da existência daquela cidade, que é o de servir como local de descarte de brinquedos defeituosos. A paleta de cores do filme tornam-se mais escuras, o clima passa a ser sombrio, carregado, e toda a animação existente nos Uglydolls deixa de existir. Há, literalmente, uma frase com os seguintes dizeres: “fechado por falta de esperança”.

 

O terceiro ato do filme tem um momento de provação para os Uglydolls, onde há uma reconstituição praticamente ipsi litteris da cena da fornalha de Toy Story 3. O problema aqui, além da reprodução mal feita, é a construção emocional – não há desenvolvimento suficiente dos personagens para você se importar o suficiente com uma possível morte deles. Para a surpresa de ninguém, nenhum dos personagens morre.

 

Perpassada a cena da fornalha, vem o clímax da história: a provação. Os Uglydolls, Lou e outros brinquedos participam de uma competição que vai determinar qual brinquedo está apto para pertencer à uma criança. Provas que envolvem a sobrevivência dentro de uma casa, com atividades que envolvem enganar um cachorro até cuidar de um bebê. Lou, movido pelo desejo de humilhar os Uglydolls e provar que é o melhor brinquedo que há, prefere ganhar a competição à cuidar de um bebê que está em prantos. O filme, nesse momento, nos ensina que amor e compaixão são os verdadeiros propósitos de um brinquedo, o que leva Lou a perder a competição, mesmo tendo vencido a provação.

 

Antes do encerramento do filme, o segredo de Lou, pré-anunciado no segundo ato, finalmente é revelado: ele busca o máximo da perfeição por ser um protótipo, o que o leva ser frustrado por nunca conseguir, por mais perfeito que seja, fazer parte do mundo real, ser de uma criança.

 

Há, no filme, uma tentativa de cativar a audiência por meio dos astros envolvidos. Janelle Monáe, Kelly Clarkson, Pitbull, Nick Jonas, Blake Shelton, Charli XCX, são alguns dos nomes envolvidos na dublagem dos personagens, bem como nas canções entoadas por estes. Contudo, nenhuma das músicas é boa o suficiente para ficar na sua mente após o filme.

 

A mensagem do filme teria sido perfeitamente transmitida com a canção Just The Way You Are, do Bruno Mars, reduzindo a exposição dialógica presente nas músicas e utilizando o tempo economizado para desenvolver os personagens, a ponto de criar um vínculo destes com o espectador. Apesar do filme ter sido pensado para o público infantil, como adulto, sabendo dos nomes envolvidos na trama, fico com um gosto azedo na boca pela oportunidade desperdiçada.

 

UglyDolls promove uma reflexão sobre a auto aceitação, importante em tempos de cyberbullying e ambientes escolares tóxicos aos quais as crianças estão submetidas. Entreter o público infantil é uma árdua tarefa, mas quando isso consegue ser feito, passar uma mensagem positiva é fundamental. Assim como as pessoas, todos os brinquedos possuem defeitos, e é preciso entender que são esses defeitos que nos fazem ser quem somos.

Nota: 6/10
Ficha Técnica:
UglyDolls (2019)
Duração: 87 minutos
Gênero: Animação
Diretor: Kelly Asbury
Dublado por: Kelly Clarkson, Janelle Monáe, Nick Jonas, Pitbull, Blake Shelton e outros.

 

Equipe Canal In

Repórter/ Resenha: Marco Dias

Editor Ricardo Henrique

Fotos divulgação

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