Resenha “IN” do Filme X-Men: Fênix Negra (X-Men Dark Phoenix, 2019)

 

 

Uma fênix que não ressurgirá tão cedo!

Os filmes dos X-Men acompanharam meu crescimento. Lembro de todas as fases dos mutantes: desde a pobreza dos efeitos visuais e a falta de músculos do Hugh Jackman no primeiro filme (X-Men, 2000) até a obra-prima Logan (Logan, 2017); ou, até mesmo da pretensão de retomada dos rumos com X-Men: Primeira Classe (X-Men: First Class, 2011). Quando vi o primeiro filme dessa nova geração, fiquei empolgado. Assistia em loop, praticamente (risos). E com a sua continuação, Dias de um Futuro Esquecido, eu tinha voltado a confiar na saga cinematográfica dos X-Men. Mas aqui, com essa franquia, fica claro que interferências externas podem atrapalhar (e muito) os rumos de um longa-metragem. Desde a ascensão da atriz Jennifer Lawrence aos problemas envolvendo o diretor Bryan Singer, passando pela compra da Fox pela Disney. Tudo isso, inegavelmente, transformou a franquia em um emaranhado de decisões esquisitas e confusas.

 

Em X-Men: Primeira Classe, lançado em 2011, Jennifer Lawrence era uma completa desconhecida. Com potencial para se tornar uma estrela, seu talento já era reconhecido, mas ainda não havia a fama em volta do seu nome. No ano seguinte estrelaria a franquia Jogos Vorazes e, a partir daí, sua vida não seria mais a mesma. Essa mudança drástica na carreira da atriz influenciou diretamente os filmes dos X-Men que foram lançados posteriormente. Para mantê-la no elenco, era necessário dar protagonismo à mesma. E com isso, a sua personagem, a Mística, passou a ter relevância, dividindo os holofotes com o James McAvoy e o Michael Fassbender (Charles Xavier e Magneto, respectivamente).

 

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido marca, justamente, a mudança da personagem Mística, que se torna um elo vital para a franquia. O “cuidado” para que ela roube a cena é tamanho que até mesmo a sua maquiagem é simplificada. O importante é mostrar o rosto da atriz vencedora do Oscar, nada mais. Apesar disso, juntamente com Primeira Classe, esse era (e ainda é) o meu filme dos X-Men favorito, talvez por trazer uma certa sensação nostálgica em rever os mutantes da primeira trilogia em cena com a nova geração.

Em X-Men: Apocalipse, temos que a Mística se tornou a líder de um jovem grupo de mutantes. Aqui, enquanto a nova equipe se formava (e eu, esperançosamente, acreditava que os X-Men teriam salvação no cinema), a primeira classe dos mutantes declinava. Apesar do vilão genérico, interpretado pelo Oscar Isaac (ele até se esforça, mas o roteiro não ajuda), esse filme ainda possuía uma certa coerência narrativa, três atos de roteiro bem estruturados que entretinham (se você não ficasse enjoado na metade do filme, é claro) e bons atores.

Enquanto tudo se encaminhava para um futuro promissor, dois grandes acontecimentos de bastidores vieram ao conhecimento público, mudando completamente o rumo da franquia nas telonas.

O primeiro deles foi o envolvimento do diretor Bryan Singer em uma série de denúncias de abuso sexual envolvendo menores de idade. Ele, que havia sido a mente por trás da transição dos X-Men dos quadrinhos para o cinema, desde o primeiro filme, em 2000, foi posto para fora da condução da franquia (o que, à priori, não seria um problema, uma vez X-Men: Primeira Classe também não possuía a sua direção).

Associado à demissão de Singer, os rumores de uma possível compra da 21st Century Fox pela Disney se intensificaram, gerando repercussões que nos faziam refletir, levando-nos a ter pensamentos como: “será que X-Men: Fênix Negra vai realmente ser lançado?” ou “como os X-Men serão introduzidos no universo Marvel?”. E no dia 20 de março deste ano, a Disney, então, comprou a Fox. Porém, isso não impediu o lançamento do filme (mas deveria).


X-Men: Fênix Negra (Dark Phoenix, 2019), é o último capítulo da saga dos mutantes sob os comandos da Fox. A partir de agora, todos os filmes envolvendo os personagens terão a supervisão, direta ou indireta, da Disney (provavelmente, eles farão parte do Universo Cinematográfico da Marvel – MCU). E, após essa extensa contextualização, analisemos o filme.


O filme se inicia em 1975, com uma versão da Jean Grey criança (interpretada pela atriz Summer Fontana), dentro de um carro, com seus pais dirigindo ao longo de uma rodovia. Jean pede para que a mãe altere a música que está tocando no rádio, mas esta não o faz. Então, o rádio começa a mudar de estação por conta própria, dando ao espectador a noção do tamanho dos poderes que residem naquela garotinha. A fúria da “entidade” interior da menina é tamanha que faz o carro capotar em alta velocidade, após colidir com um caminhão.

 

Após o acidente, Jean conhece Charles Xavier (James McAvoy), que lhe diz que seus pais estão mortos, oferecendo-lhe, então, um novo lar e, o mais importante, uma nova família, com pessoas iguais à ela.

O filme dá um salto de quinze anos, indo parar em 1992, em um cenário onde os X-Men são reconhecidos mundialmente como heróis. A idolatria é tamanha que o presidente dos EUA (interpretado por Brian d’Arcy James) possui uma linha direta para falar com o professor Xavier. E, em meio a um problema espacial que envolve matéria negra, a equipe de mutantes é convocada para resgatar os astronautas americanos.


Durante a missão espacial, em meio à soberba do professor Xavier (que trava inúmeros embates com a Mística nesse filme), Jean Grey (agora em sua versão Sophie Turner) acaba acometida pela matéria negra espacial, o que a leva a desmaiar no meio do espaço, sendo resgatada pelo Noturno (Kodi Smit-Mcphee).

 

O pronunciamento oficial após o retorno da equipe é de completo sucesso, porém o clima de que algo não está certo é evidente. Jean não aparenta ter sofrido qualquer dano, apesar de ter sido exposta e acometida ao corpo estranho espacial. Contudo, ao realizar os exames com Hank/Besta (Nicholas Hoult), fica constatado de que o seu corpo se tornou mais poderoso após o incidente. Seus poderes não conseguem ser mensurados pela escala desenvolvida por ele, o que só afirma que há algo de errado com a mutante ruiva.

 

A partir desse momento, o filme começa a se perder em sua narrativa. A introdução da personagem da Jessica Chastain, a alienígena Vuk, é confusa e se justifica, apenas, pela necessidade dos filmes blockbuster de possuírem um vilão fazendo vilania. Considero um desperdício chamar uma atriz extremamente talentosa como a Jessica (de quem, particularmente, sou fã) para interpretar um papel genérico, cuja importância narrativa é forçada por um roteiro preguiçoso.

 

Vuk tem a pretensão de capturar a energia presente em Jean para, então, ressuscitar a sua espécie, até então extinta. E, após fazer isso, ela pretende dizimar a raça humana. Há motivação mais genérica do que essa para uma vilã? Acredito que não.

 

Depois de um incidente envolvendo a mutante ruiva, ela foge da escola Xavier, indo em busca de seu pai (sim, ele não estava morto. Ficou surpreso? Eu não). Charles então, confessa para Hank e Raven (Jennifer Lawrence) que fez alterações na mente de Jean, com o intuito de protegê-la da entidade que habitava seu corpo.


A equipe dos X-Men decide ir atrás da Jean Grey e os embates entre eles contra a futura fênix merecem elogios. O nível de poder da mutante é surreal. Ela praticamente não faz qualquer esforço para enfrentar a equipe de mutantes. Até mesmo a cena clássica do Mercúrio (Evan Peters) se perde em meio ao poder de Jean (há uma cena semelhante em Liga da Justiça, envolvendo o Flash e o Superman, para quem estiver perdido).

 

Durante esse conflito entre os mutantes, a franquia toma uma tardia decisão: matar a Mística. Em meio à demonstração dos seus poderes, Jean Grey acaba matando a Raven, deixando todos os X-Men em estado catatônico. E, mais uma vez, isso acontece por uma decisão falha do professor Xavier que, envolto na culpa/soberba em não ter dado ouvidos à mutante anteriormente, permite que ela vá dialogar com a fênix, na tentativa de reintegrá-la à equipe.

 

A morte da Mística, contudo, é positiva, pois desperta em Jean um conflito interno acerca de suas ações. O problema é que o filme não consegue manter seu grau de introspecção, focado em uma perspectiva unilateral. Traduzindo: enquanto as ações são consequências da luta interna da fênix com a Jean, o filme consegue se manter apegado à subjetividade de sua protagonista. Sua dor é o que deveria carregar o filme. O conflito entre aceitar os seus poderes e aprender a controlá-los, sentindo-se parte de uma família.

 

Contudo, a necessidade de ter um terceiro ato grandioso, digno de filmes blockbusters faz com que o filme perca a sua essência, tornando-se confuso e apressado. A transformação da Jean na Fênix Negra, a luta entre os mutantes e a raça alienígena da Vuk e a separação da equipe são arcos que precisam de conclusão em pouco menos de trinta minutos de filme. A impressão que fica, para o espectador, é a de que o filme não foi finalizado da maneira desejada. É bem provável que, caso houvesse planos de uma sequência com a Fênix, o desenvolvimento da trama seria completamente diferente.

 

Um ponto de destaque no filme em meio à todo esse caos é a trilha sonora do compositor Hans Zimmer. Famoso por notas graves, em modo instrumental, com longas sequências que escalonam até provocarem no espectador a sensação de imersão, em Fênix Negra, suas composições servem de alívio para a trama. Se o longa não possuísse qualquer imagem, fosse apenas um fundo preto com a trilha sonora do Hans ao longo dos 113 minutos de duração, sairia satisfeito do cinema.

 

Inegavelmente, esse é o filme da Sophie Turner. Ela consegue carregar, aos trancos e barrancos o longa que termina da mesma maneira que a franquia começou: sendo uma completa confusão narrativa. Simon Kinberg, diretor e roteirista do filme executa um trabalho que deixa a desejar e nos faz ansiar pela presença dos mutantes no Marvel Studios (o que, agora, é uma realidade).

NOTA: 5/10
FICHA TÉCNICA:
X-Men: Fênix Negra (X-Men: Dark Phoenix, 2019)
Duração: 113 minutos
Gênero: Ação, Aventura, Ficção Científica, Super-Heróis
Escrito e Dirigido por: Simon Kinberg
Estrelando: Sophie Turner, James McAvoy, Michael Fassbender, Jessica Chastain, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult e outros.

 

Equipe Canal In

Repórter / Resenha: Marco Dias

Editor: Ricardo Henrique

Fotos: divulgação

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