Resenha IN de Carcereiros: O Filme (2019)

É muito difícil pensar nobremente quando se pensa apenas em viver – Rousseau

Filósofo iluminista, Rousseau sempre promoveu reflexões sobre a vida em social. Em seu contrato social, prevalecia a soberania da sociedade e a política da vontade coletiva. Mas, é possível pensar nobremente, respeitando esse contrato, quando o único objetivo é sobreviver dos males que afligem o seu entorno? E se a sua vida depender da quebra do contrato, ainda assim você deve respeitá-lo?

A Globo, com a sua iniciativa de lançar a plataforma Globoplay, precisou/precisa de conteúdo original, exclusivo, para disponibilizar no serviço. Com isso, surgiram inúmeras produções nacionais, à exemplo da série Carcereiros, estrelada por Rodrigo Lombardi e indicada à prêmios, como o Troféu APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte). Aproveitando a fama da série, a emissora decidiu produzir um filme, que deriva da obra original.

O filme se inicia com Adriano (Rodrigo Lombardi)conversando com uma psicóloga sobre a vida na cadeia, sua rotina e situações envolvendo alguns presos. Logo nesse início, enquanto Adriano interage com os outros funcionários do presídio, há um diálogo que serve como tônica para o desdobramento dos eventos: “- Como é que tá o clima? Tudo tranquilo, mas sujeito à chuvas e trovoadas”.  

Em seguida, vemos Adriano em ação, quando um incidente envolvendo Carlão (Similião Aurélio) eclode. Aqui, nos deparamos com um dos problemas das grandes penitenciárias, bem como do sistema público de saúde, o de não saber o que fazer com aqueles que precisam de atenção especial por conta de problemas psicológicos.

Carlão ameaça, com uma faca, matar à todos, por ter recebido uma “mensagem divina”. Segundo o mesmo, Deus quer que ele faça aquilo. Adriano, diferente dos demais, ao invés de rechaçar a ideia, concorda com o presidiário e acaba contornando a situação. Percebe-se, já no começo da trama, assim como é característica da série, todo o preparo de Adriano para lidar com os presidiários, muitas vezes com uma postura até heroica, pondo a própria vida em risco.

O aspecto familiar é exibido logo em seguida, quando Lívia (Giovanna Rispoli), filha de Adriano, mostra uma página de classificados do jornal, com vagas de emprego como professor de história para o pai, como uma espécie de pedido para que ele deixe a função no presídio. Adriano retruca, dizendo que não quer outra profissão, que escolheu ser carcereiro, fazendo com que a filha abandone a cozinha aos prantos.

Em seguida, somos finalmente apresentados à “grande ameaça” da trama, um novo preso, o terrorista internacional Abdel Mussa (Kaysar Dadour), que precisa passar uma noite na penitenciária de Adriano, antes de ser deportado. Ainda por cima, a Polícia Federal exige que essa passagem de Abdel seja mantida em sigilo. Nesse quesito, o filme reforça o estigma do terrorista oriental, que é mau apenas por ser mau. Não há qualquer desenvolvimento do personagem que deveria figurar como antagonista da trama. Se Adriano é a perfeita representação da bondade, Abdel é completamente o oposto, mas vazio.

Paralelo à isso, ao saber da chegada do terrorista, os presos arquitetam um plano para mata-lo, exigindo que Adriano o entregue. Apesar da retórica do carcereiro, a máxima dos presidiários é a de que nenhum deles cometeu as mesmas atrocidades de Abdel. Aqui, o filme propõe um questionamento: há um código moral entre os presos? A pena de morte deveria ser aplicada em casos como o de Abdel, onde houve o extermínio de crianças com a colocação de uma bomba na escola?

A cadeia é dividida em duas facções, rivais, que aproveitam a chegada de Abdel para intensificarem seus conflitos. E, justamente ao longo dessa noite conturbada, há uma invasão do presídio, com homens fortemente armados e cobertos, em trajes pretos, aumentando o clima de tensão e reafirmando a frase do começo do filme: “o dia está sujeito à chuvas e trovoadas”.

Após a invasão, apesar de parecer previsível, o filme faz escolhas de roteiro que promovem inúmeras reviravoltas, dialogando com o atual cenário político brasileiro e proporcionando reflexões sobre o valor de cada vida. Afinal de contas, qual vida vale mais, a de um criminoso “comum” ou a de um criminoso de colarinho branco, com foro privilegiado? E a vida de um terrorista? Todas as vidas têm o mesmo valor ou se destaca aquela que é mais “relevante” em termos sociais?

Sem contar muitos detalhes das reviravoltas da trama, há, no final, um verdadeiro banho de sangue – cerca de 60 corpos de presos mortos, espalhados pelo chão. Aqui, o destaque fica para a atuação do Rodrigo Lombardi, que parece viver a profissão. A questão da escolha, de ter escolhido ser carcereiro, fala mais alto. Adriano se entrega e a atuação de Lombardi tem que ser reconhecida. No primeiro episódio da série de televisão, ao final, ele tira a camisa e, ofegante, observa a paisagem ao seu redor. Aqui, a tristeza em seu olhar é iminente, mas a sensação de dever cumprido, de sobreviver à mais um dia de trabalho fala mais alto.

O filme se vale do marketing em cima da figura do Kaysar Dadour, até por toda a sua fama e história recente, para desviar a atenção do público de algumas reviravoltas na trama. Funciona, mas acaba criando uma falta de aprofundamento do personagem, como já dito anteriormente. Porém, como primeiro trabalho do ex-BBB, ele entrega uma atuação sem grandes dificuldades. O fato de não falar português no filme, ajuda.

As diferentes tramas que o filme propõe, com diferentes núcleos que convergem em prol de um objetivo em comum, sem dúvidas, são um dos acertos do roteiro. O grupo de Juarez (Rômulo Braga), o grupo do Príncipe (Rainer Cadete), o grupo dos Invasores e Adriano: todos em busca do “presidiário de ouro”.

A trilha sonora do filme é inquietante e dita o tom soturno do filme. A sensação de claustrofobia em meio aos corredores da penitenciária é constante. Méritos aqui para Guilherme Garbato e Gustavo Garbato, responsáveis pelas composiçõesem tons graves, com forte uso de músicas instrumentais que criam a atmosfera de tensão e geram inquietação para o público.

A direção do José Eduardo Belmonte também representa outro acerto para a obra. Mantendo o clima já apresentado na série, o filme pode ser considerado uma versão estendida da versão televisiva, mas sem os diálogos de carcereiros da vida real, o que gera um tom meio documental para a obra.

Carcereiros é um filme que promove a reflexão sobre aspectos da nossa sociedade, desenvolvendo cenários únicos para o cinema brasileiro, e adaptando a realidade para as telonas. Uma produção nacional que se destaca, em um ano que, apesar de positivo em termos de produções, sofreu inúmeras baixas por parte da política governamental. Carcereiros é um filme que serve como reflexo do seu próprio tempo, e dialoga com a vida.

NOTA: 8/10

Ficha Técnica:

Carcereiros: O Filme (2019)

Duração: 110 minutos

Gênero: Ação, Drama

Direção: José Eduardo Belmonte

Estrelando: Rodrigo Lombardi, Kaysar Dadour, Milton Gonçalves, Rômulo Braga e outros.

Estreia Nacional: 28 de novembro de 2019

Inspirado no livro “Carcereiros” de Drauzio Varella

 

 

Equipe Canal In

Repórter: Marco Dias

Editor: Ricardo Henrique 

Fotos: divulgação 

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