Resenha IN do Filme As Trapaceiras (The Hustle, 2019)

No cenário do audiovisual alguns estereótipos são bastante recorrentes como, por exemplo, gordos serem taxados como pessoas cômicas por seu jeito destrambelhado de lidar com as situações. No cenário brasileiro, à título de exemplo, recentemente, o ator Leandro Hassum sofreu com ataques por, supostamente, ter perdido o seu humor após a sua cirurgia de redução do estômago, como uma representação direta de que o seu talento estaria diretamente relacionado com o fato de ser acima do peso.

No cinema hollywoodiano, Melissa McCarthy e Kevin James são dois grandes exemplos de celebridades que fazem sucesso pela exploração das suas características físicas. A atriz australiana Rebel Wilson construiu sua carreira associando sua imagem a filmes medianos (sendo bem eufêmico, pois os filmes são ruins mesmo) que exploram, justamente, a característica que a tornou famosa: seu humor desajeitado (ou melhor, o fato do público dar risada por ver uma gorda em situações inusitadas).

Em As Trapaceiras (The Hustle, 2019), não poderia ser diferente. Rebel Wilson interpreta Penny, uma jovem golpista, que acaba encontrando Josephine (Anne Hathaway), uma “renomada” trapaceira. O jeito desengonçado de Penny contrasta com a classe e elegância de Josephine, ocasionando boas situações entre a dupla de protagonistas. Há, contudo, vários problemas no roteiro que, genuinamente, me impediram de aproveitar o filme.

Resumidamente, o filme conta a história de Penny e Josephine, duas golpistas, cada uma ao seu estilo, que conspiram para ludibriar os homens e, com isso, conseguirem dinheiro, joias e demais objetos de valor. A lógica é a seguinte: se os homens se aproveitam das mulheres, por que não fazer exatamente o mesmo com eles? E, nessa direção, o filme caminha positivamente durante a sua maior parte.

O primeiro ponto negativo reside na escolha do humor forçado em face da Rebel Wilson. Há uma enorme exposição a situações ridículas com o intuito de provocar risos diante do absurdo (tentativa sem sucesso, vale ressaltar). Há momentos em que o clímax é cortado abruptamente para dar lugar a uma cena boba envolvendo o físico da Rebel Wilson.

O filme tenta empregar um discurso feminista, subvertendo a lógica e criando, até certo ponto, um otimismo (ainda que raso), de que as mulheres, ao menos aqui, seriam bem representadas. Contudo, ao decorrer da trama, quando Penny e Josephine entram em disputa para ludibriar um jovem bilionário do ramo da tecnologia, a história caminha em uma direção um tanto quanto óbvia para o público, mas acabapossuindo um “plot twist” que reforça tudo aquilo que o filme tenta, à princípio, combater: a visão de que os homens são superiores às mulheres. O pior de tudo é que a virada na trama desafia a lógica. Como um jovem bilionário da tecnologia consegue passar despercebido pela multidão?

Outro aspecto negativo diz respeito à trilha sonora que, feita quase em tom único, incomoda. Anne Dudley, compositora creditada e vencedora do Oscar de Melhor Canção Original pelo filme Ou Tudo ou Nada (The Full Monty, 1997), surpreende pela escolha duvidosa para ditar o ritmo da trama. Parece um trabalho desdenhoso e preguiçoso.

As Trapaceiras é um filme com bonitas locações, elenco esforçado, protagonistas que seguram a trama, mas um roteiro problemático com soluções pobres e ilógicas, uma trilha sonora de mau gosto e um discurso preconceituoso.

NOTA: 4,5/10

Ficha Técnica:

As Trapaceiras (The Hustle, 2019)

Duração: 93 minutos

Gênero: Comédia

Diretor: Chris Addison

Estrelando: Rebel Wilson, Anne Hathaway, Alex Sharp e outros.

Estreia Nacional: 25 de julho de 2019.

 

Equipe Canal In

Repórter / Resenha: Marco Dias 

Editor: Ricardo Henrique 

Fotos: divulgação 

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