Resenha IN do Filme Bela Vingança (2020)

O cinema sempre funciona como um reflexo da atualidade, e as obras cinematográficas são produtos de uma geração, que permanecem com o passar do tempo. Retratar problemas sociais é, portanto, um objetivo da sétima arte. 

A cultura do estupro nunca foi tão discutida e esteve em evidência quanto nos últimos anos. Com a ascensão do Movimento #MeToo, as mulheres tiveram força e coragem para denunciar seus agressores, expondo essa problemática social e trazendo à tona algo que sempre era deixado de lado por conta de possíveis retaliações.

Em verdade, as mulheres sempre foram (e ainda são) vítimas de uma estrutura social pautada pelo machismo, que estimula a cultura do estupro e assegura aos agressores o status de normalidade, de que a conduta deles é digna de louvor, de uma atitude de homem. Felizmente, com a ascensão das redes sociais e a abertura de espaços para diálogos, essa lógica tem se renovado e se modificado. 

Inserido nesse contexto, Bela Vingança (Promising Young Woman, 2020) é uma história de retaliação. Mas aqui, diferente de outras obras como Doce Vingança (2010) e Revenge (2017), a trama é mais realista, se assemelhando, em certo ponto, à minissérie I May Destroy You (2020). 

No filme, Cassie (Carey Mulligan) é uma mulher com inúmeros traumas do passado, que frequenta bares todas as noites fingindo estar bêbada. Quando homens mal-intencionados se aproximam dela com a desculpa de que vão ajuda-la, Cassie entra em ação como uma justiceira, e se vinga dos predadores sexuais que tiveram o azar de conhecê-la. 

A trama, que à princípio parece uma história de vingança, se revela muito mais complexa e forte com o avançar do filme. Vemos que Cassie não está sendo uma justiceira apenas para vingar todas as mulheres vítimas de abuso sexual, mas ela possui uma motivação para suas ações que é mais do que suficiente para justificar a sua “jornada do herói”. 

A maneira como o longa aborda a visão da sociedade diante da fala feminina é feita, ao mesmo tempo com muito cuidado e realismo. Diversos são os momentos em que Cassie é menosprezada, é taxada de bêbada, de que não sabe de toda a história, que não está com a plena sanidade mental e, para quem está assistindo, isso pode ser angustiante, dada a veracidade do retrato. Mas, além disso, o filme mostra que, até mesmo os homens tidos como “bonzinhos”, boa praça, incapazes de fazer mal à uma mosca, podem ser os piores agressores, justamente pela falta de expectativa neles. 

Outro ponto de destaque no longa é a fluidez dos relacionamentos, temática abordada por Zygmunt Bauman em suas obras. Fica evidente que todos os homens que passam pelo caminho de Cassie, à exceção de Ryan (Bo Burnham), sequer sabem o nome dela – e nem querer saber. Dizem que criaram um vínculo especial, que ela é diferenciada, especial, mas tudo isso surge apenas para encobrir as suas reais intenções. 

O roteiro do filme, estruturado em quatro principais núcleos de vingança, certamente é um dos pontos altos do longa, sendo justa a indicação ao Oscar de Melhor Roteiro Original. A crítica proposta, como dito acima, é um reflexo dos problemas da nossa sociedade e aqui, acontece sem qualquer filtro, sendo quase impossível distinguir ficção de realidade. 

E por falar em oscar, o filme ainda concorre em outras quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Atriz para a Carey Mulligan, Melhor Direção para a Emerald Fennell e Melhor Montagem. 

Bela Vingança (Promising Young Woman) é um filme necessário em tempos de redes sociais, com a ascensão dos discursos que prezam pelo respeito e vão de encontro à impunidade contra os agressores sexuais. É impossível não sentir o estômago embrulhar diante da realidade de casos como o da Mari Ferrer, que encontram nesse filme, um retrato ainda mais brutal. 

NOTA: 9/10 

– FICHA TÉCNICA: 

Título Original: Promising Young Woman

Ano de Lançamento: 2020 

Gênero: Suspense, Drama, Comédia 

Elenco: Carey Mulligan, Bo Burnham, Alison Brie, Connie Britton e outros. 

Direção: Emerald Fennell

Duração: 1h54min (114 minutos) 

Equipe Canal In

Repórter: Marco Dias

Editor: Ricardo Henrique

Foto: divulgação

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