Resenha “IN” do Filme Deslembro (2018)

Ditadura nunca mais!

O atual presidente do Brasil, durante suas inúmeras falas esdrúxulas (e igualmente desnecessárias), tentou entoar em uníssono o discurso de que não houve o golpe militar de 1964, mas que teria ocorrido uma “transição pacífica de poder”. Contudo, essa transição, na memória das pessoas que vivenciaram esse período, não foi nada pacífica, conforme afirma o Sr. Golden Shower. São inúmeros os relatos de agressões, torturas, mortes e, principalmente, de “pessoas desaparecidas” durante essa época.

A ditadura militar que aconteceu em 1964 representa um dos momentos mais vergonhosos para a história da nação brasileira. Não é um motivo para comemoração, como entende o nosso presidente (que, apesar de ser o presidente do país, não me representa). A tentativa de reescrever a história não merece qualquer consideração. Celebrar os crimes cometidos é desonrar a democracia.

Deslembro, filme nacional da diretora Flávia Castro, cuja primeira exibição ocorreu no Festival do Rio em 2018 e que concorreu no Festival Internacional de Cinema de Veneza, narra a história de Joana (interpretada por Jeanne Boudier), uma garota que vê a vida mudar ao ter que voltar para o Brasil, em 1979, quando a anistia foi decretada pelo governo de João Figueiredo, então presidente do país – e último presidente do regime ditatorial.

Crescendo na França, em um ambiente onde era incentivada à constante leitura, Joana, juntamente com seus irmãos mais novos, Paco (Arthur Raynaud) e Leon (Hugo Abranches), falam francês fluentemente e compreendem o português (Joana é fluente, mas seus irmãos não).

Joana possui um gosto musical voltado para o rock dos anos 60 – 70, que dita o ritmo da trama. Artistas como The Doors, The Velvet Underground, Pink Floyd e David Bowie são presenças constantes. Caetano Veloso, preso e exilado na época da ditadura, também faz parte do repertório musical, cantando em inglês a música You Don’t Know Me, composta em 1972 e que retrata, justamente, a condição de Joana no filme (alguém que está fora do seu ambiente, deslocada de seu contexto e, portanto, incompreensível).

A mãe de Joana (Sara Antunes), brasileira, deseja retornar ao seu país, ainda que contra a vontade da filha. Relutante, Joana se recusa a falar em português, o que dá ao filme uma dualidade inicial, reforçando o conflito da protagonista em aceitar as suas origens (atitude que, até certo ponto, é inquestionável, pois quem trocaria a França pelo Brasil? Talvez Najila Trindade, apenas).

A câmera na mão é outro recurso bastante utilizado pela diretora, para criar a sensação de imersão na história, no caos da mente conflituosa de Joana. O espectador sente que faz parte da história, apesar do ritmo lento de construção dos personagens.

Por não sabermos o que aconteceu no passado de Joana (pelo menos na perspectiva da personagem, pois a ditadura é um acontecimento notório), o jogo narrativo entre o lembrar e o deslembrar do título do filme é algo presente ao longo da trama. Se Joana não se lembra de tudo o que aconteceu, as memórias que tentam vir à sua mente são forçosamente deslembradas por ela, por serem dolorosas.

Quando Joana conhece Ernesto, um adolescente da sua idade, a sua repulsa em ficar no Brasil começa a se dissipar. Contudo, a sua curiosidade em saber mais a respeito do seu passado e, em especial, do passado de seu pai, começam a vir à tona quando ela necessita da certidão de óbito do seu genitor para, então, viajar para Ouro Preto em uma excursão escolar, afim de conhecer mais da história de Aleijadinho.

Por ter sido um “criminoso” político, seu pai, Eduardo(Jesuíta Barbosa), “desapareceu” durante a ditadura militar, antes de Joana e sua mãe viajarem para a França. Eduardo, portanto, tornou-se um dos desaparecidos políticos do período ditatorial. A grande problemática oferecida na história, para Joana, é que, uma vez que não há corpo para ser enterrado, não é possível atestar o óbito do seu pai. Joana, então, questiona como a sua mãe pode ter tanta certeza de que Eduardo está morto (afinal de contas, ela não faz ideia das consequências da ditadura).

A partir desse ponto a história se desenvolve em um lirismo exacerbado, com inúmeras alusões ao próprio título, a partir da perspectiva da lembrança de Joana. Quanto mais ela se esforça em lembrar da época em que era uma criança, mais dolorosas são as memórias. E, se por um lado, Joana quer lembrar, sua mãe, por outro, tenta esquecer, evita o assunto ao máximo. Mãe e filha, portanto, não conversam sobre o assunto, apesar das inúmeras tentativas de Joana.

O destaque aqui fica por conta de Eliane Giardini, que interpreta Lucia, vó de Joana e motor condutor do ímpeto da neta em querer saber mais sobre a história do seu filho. Lucia entrega para Joana anotações e uma foto de Eduardo, na esperança de que a neta consiga conversar com a mãe sobre o assunto.

A literatura, presente na vida de Joana, é fundamental para a trama. Fernando Pessoa, aqui, é referenciado com maestria, dando tom ao roteiro:

Deslembro incertamente. Meu passado

Não sei quem o viveu. Se eu mesmo fui,

Está confusamente deslembrado

E logo em mim enclausurado flui.

Não sei quem fui nem sou. Ignoro tudo.

Só há de meu o que me vê agora […]

Deslembro é um filme que ultrapassa as barreiras entre a ficção e a realidade, fazendo com que essas se confundam, entrelaçando-se. Lembrar da ditadura é lembrar que a humanidade é capaz de cometer atrocidades quando líderes autoritários estão no poder. Não é motivo para celebrar, mas sem dúvida nenhuma jamais deve ser esquecida.

NOTA: 10/10

Ficha Técnica:

Deslembro (2018)

Duração: 96 minutos

Gênero: Drama

Diretora: Flávia Castro

Estrelando: Jeanne Bourdier, Jesuíta Barbosa, Sara Antunes, Eliane Giardini e outros.

Estreia Nacional: 20 de julho de 2019

 

Equipe Canal In

Repórter / Resenha: Marco Dias

Editor: Ricardo Henrique 

Fotos: divulgação 

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