Resenha IN do filme Eu Me Importo (I Care a Lot, 2021)

Foto: Reprodução

O mundo carece de anti-heróis. Com o sucesso de Deadpool, em 2016, personagens com uma moral ambígua, um tanto quanto duvidosa, tomaram conta das telonas. Nas séries, Breaking Bad abriu as portas da nova geração, com Walter White se transformando em um ícone da cultura pop. 

É claro que o conceito de anti-heróis não é novidade. Diversos exemplos, como Tony Soprano, Tony Montana ou até mesmo o eterno Vito Corleone já se enquadravam nesses papeis de personagens com uma moral duvidosa, mas que encantavam o público pelo seu carisma. 

E nessa leva de anti-heróis, a Netflix tenta emplacar seu mais novo filme, Eu Me Importo (I Care a Lot, 2021), produção que tem a Rosamund Pike como protagonista, a atriz que alcançou a fama após interpretar Amy Dunne, em Garota Exemplar (Gone Girl, 2014), uma personagem que, inicialmente, possuía uma moral duvidosa. 

Em “Eu Me Importo”, Rosamund Pike dá vida à Marla Grayson, uma curadora que cuida de idosos ricos. Através dessa sua profissão, ela aplica golpes, internando os seus clientes e fazendo com que todos acreditem que eles não podem cuidar de si mesmos. Com isso, ela leva uma confortável vida de luxo, apesar de não ser milionária. 

Porém, tudo muda quando ela pensa ter encontrado uma nova vítima perfeita, Jennifer Peterson (Dianne Wiest), uma idosa sem qualquer parentesco vivo (aparentemente). Só que a senhora guarda inúmeros segredos, pondo a vida de Marla e de todos ao seu redor em risco. 

Com essa premissa, o filme tinha tudo para ser mais um drama genérico, com elementos de ação. Mas, a história se revela como uma comédia de humor negro com toques de drama. Pensar que alguém pode se aproveitar de idosos não é algo digno de apreciação. 

E o grande acerto da Netflix é, justamente, trazer a Rosamund Pike para protagonizar a história. A atriz consegue transitar entre as facetas de uma mocinha ingênua, indefesa, e de uma vilã com todos os requintes de crueldade possíveis. É impossível não lembrar da performance dela em Garota Exemplar, quando ela demonstrou todo o seu potencial para confundir a opinião do público diante das atitudes de sua personagem. 

Com a sua protagonista funcionando perfeitamente, a história se desenvolve mostrando os esquemas e golpes que ela, juntamente com a sua parceira Fran (Eiza González), aplicam nos idosos. A situação é tão absurda que Marla tem até um mural em seu escritório com as fotos de todas as suas vítimas e dos potenciais alvos. E uma rede de aliados fazem parte dessa estratégia moralmente ilícita. 

Mas, como já adiantado no começo da resenha, tudo muda quando ela conhece a senhora Jennifer Peterson, uma idosa aparentemente inofensiva, sem qualquer filiação ou parentesco vivos, ou seja, uma vítima perfeita para Marla. E nesse ponto, o filme começa a se desenvolver, revelando situações inusitadas e estranhamente cômicas, como um tiroteio em um asilo. 

O elenco de apoio do filme conta com Peter Dinklage, interpretando Roman Lunyov, o filho não registrado de Jennifer, Chis Messina como Dean Ericson, o advogado inescrupuloso que tenta atender todos os pedidos de Roman, Alicia Witt como a Dra. Karen Amos, responsável por designar os novos alvos de Marla e Damian Young, o dono da clínica onde Marla internava suas vítimas.

E as interações entre esses personagens acrescentam muito ao filme. Se o público torce para que Marla, com toda a sua moral corrompida e seus esquemas de enriquecimento às custas dos idosos, isso se deve justamente aos antagonistas da trama, que não conseguem ter o mesmo carisma da Rosamund Pike. 

Peter Dinklage, por outro lado, não consegue repetir o mesmo feito de Tyrion Lannister em Game of Thrones, mas entrega um “vilão” que faz o público nutrir ódio de suas atitudes, ao mesmo tempo que acha cômica suas aparições. Seu ataques de raiva diante dos acontecimentos contrários à sua vontade roubam a cena, mas é nítido que sua importância foi reduzida para não ofuscar o protagonismo de Marla. 

A história, contudo, exige do espectador um excesso na suspensão da descrença, tendo em vista os acontecimentos nos instantes finais do filme, a saber o fato de Marla conseguir sair de um carro no fundo de um rio e ainda chegar a tempo de salvar sua namorada de uma explosão em seu apartamento. Típico elemento de filmes de ação dos anos 2000, que pode incomodar aqui, justamente por não se tratar da proposta do longa desde o começo. 

Eu Me Importo é um filme que entrega uma protagonista subversiva, com uma trama que coloca o público para torcer por algo que não é moralmente aceitável, mas que dadas as devidas proporções do longa, se transformam em único caminho aceitável. 

FICHA TÉCNICA: 

Título Original: I Care a Lot (Eu Me Importo)

Duração: 1h 59 min (119 minutos) 

Gênero: Comédia/Drama

Direção: J Blakeson 

Estrelando: Rosamund Pike, Eiza González, Peter Dinklage e outros. 

Disponível na Netflix

Nota: 7,5/10

Equipe Canal In

Repórter: Marco Dias

Editor: Ricardo Henrique

Fotos: divulgação

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