Resenha IN do Filme Hebe – A Estrela do Brasil (2019)

O Brasil vive um período de inquietação política. As constantes mudanças no poder afetam as pautas sociais, e a necessidade de voz por parte da população é iminente. Contudo, o medo de represálias (em especial, a censura) faz com que algumas pessoas recuem e não enfrentem as “autoridades”.

A introdução acima, apesar de flertar com a realidade atual do país, diz respeito aos anos 80, culminando no período que sucedeu o final da ditadura militar, onde os órgãos de repressão continuavam ativos, censurando a programação televisiva. Porém, uma mulher desafiou o sistema e impôs as suas regras, mudando para sempre o cenário da televisão brasileira. Essa é a história contada na cinebiografia da apresentadora Hebe Camargo.

O filme se inicia no Departamento de Censura do Brasil, onde os agentes da ditadura escutavam gravações do programa da Hebe, na tentativa de controlar o que era veiculado. Walter Clark (Danilo Grangheia), produtor do programa, era o responsável por tentar adequar o discurso da apresentadora às exigências do governo (sem sucesso).

O programa começa com uma apresentação dos Menudos. Ironicamente, a canção apresentada é “Não se Reprima”, a mais famosa do grupo. Hebe (Andrea Beltrão), de recusa a entrar no palco, impondo uma única condição para mudar de ideia: ou o performer (um ator vestido de mulher) entra no palco com ela, ou nada feito. Cedendo aos desejos da apresentadora, Walter aceita a exigência.

Durante sua entrevista com os Menudos, Walter pede para que Hebe entreviste os astros em português, mas a apresentadora se recusa ao perceber que o enfoque da emissora (o enquadramento das câmeras) está direcionado para ela, evitando mostrar o artista performer.

Sempre questionadora, Hebe fazia tudo o que queria, sendo constantemente questionada por suas atitudes pela emissora, a Bandeirantes. Os produtores, acionistas, toda a equipe, de modo geral, a taxavam como louca e, em uma linguagem mais popular, como “afrontosa”, por trazes pautas sempre relacionadas à direitos dos LGBTQIA+, além de possuir um vocabulário que não era “condizente” com a exibição na TV aberta em horário nobre.

Além do aspecto profissional da apresentadora, o filme recria sua vida pessoal, destrinchando a relação de Hebe com o marido, Lélio Ravagnani (Marco Ricca), bem como com seu filho, Marcello Camargo (Caio Horowicz). Seu sobrinho, Claudio Pessutti (Danton Mello), também é retratado, como uma figura mais afetuosa, que mantém uma relação maior de proximidade com Hebe. A relação do filho da apresentadora com os pais é conturbada e bem desenvolvida pela trama.

Retratando temas que eram vistos como tabus, Hebe mantinha uma amizade com seu cabelereiro, Carlucho (Ivo Muller), gay e vítima da AIDS (que, à época, era uma doença fatal). O núcleo da amizade entre os dois proporciona momentos com uma carga dramática interessante, mas pouco desenvolvida na trama.

Durante um episódio envolvendo a aparição de Dercy Gonçalves (Stella Miranda) e Roberta Close (Renata Bastos), Hebe sofre da sua emissora (Bandeirantes), a mais dura baixa por conta da censura: ou seu programa passa a ser gravado, ou ele terá que sair do ar. Sem pensar duas vezes, em rede nacional, a apresentadora se demite, expondo a falta de apoio
da emissora diante de sua postura sempre incisiva.

Pouco tempo depois, a apresentadora começa a ser cogitada em diversas emissoras, mas é o convite do SBT, por meio do dono da emissora, Silvio Santos (Daniel Boaventura, em performance caricata e superficial), que a atrai. Relutante, assina o contrato após acertar duas condições: o recebimento de 30% de todos os anúncios, bem como total liberdade criativa para conduzir o programa (“tem que ser do meu jeitinho”).

Sua estreia no SBT acontece em um programa com a participação de Roberto Carlos (Felipe Rocha), em um episódio que desperta a ira de seu esposo, após a apresentadora beijar o cantor em rede nacional. Contudo, são os posicionamentos políticos de Hebe que mais repercutem perante a mídia, bem como frente aos órgãos de censura.

O aspecto político do filme, porém, deixa a desejar. Apesar de retratar uma certa aproximação da apresentadora com Paulo Maluf, o roteiro jamais se posiciona nem direciona um viés político, o que afeta o desenvolvimento da narrativa. Fica claro que a censura era um empecilho, contudo em momento algum isso é aprofundado.

Há, no filme, um elemento que incomoda: o excesso de enfoque no rosto da atriz Andrea Beltrão. Ao tentar aproximar o espectador da visão de como funciona um programa de televisão, a fotografia faz uso de planos fechados de maneira exagerada, deixando fora de cena elementos importantes para a composição da imagem.

Das cinebiografias do ano, Hebe talvez seja a mais necessária (não a melhor), mas igualmente superficial. Acerta em retratar a vida de uma artista à frente do seu tempo, mas peca pelo pouco aprofundamento em uma história que tinha tudo para ser cativante. De qualquer forma, o cinema nacional sobrevive em tempos de censura e falta de financiamento.

NOTA: 6,5/10

Ficha Técnica:

Hebe: A Estrela do Brasil (2019)

Gênero: Biografia, Drama

Duração: 112 minutos

Direção: Maurício Farias

Estrelando: Andrea Beltrão, Marco Ricca, Daniel Boaventura, Danton Mello e outros

Estreia Nacional: 26 de setembro de 2019

 

 

Equipe Canal In

Repórter / Resenha: Marco Dias

Editor: Ricardo Henrique 

Fotos: divulgação 

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