Resenha IN do Filme IT: A Coisa – Capítulo 2 (It – ChapterTwo, 2019)

“O terror, que só terminaria 28 anos depois (se terminasse), começou, até onde sei ou consigo saber, com um barco feito de uma folha de jornal flutuando por uma sarjeta cheia da água da chuva”. – It, A Coisa (livro de 1986)

Stephen King é um dos maiores escritores de ficção da atualidade. Com diversas obras publicadas e tantas outras adaptadas para o cinema e a televisão, consagrou-se, há muito, entre os gênios da literatura. Suas obras, quase sempre voltadas para o horror, oferecem ao público diversos elementos do sobrenatural, que despertam os mais diversos sentimentos.

A frase em destaque foi extraída do livro de King, It A Coisa, publicado originalmente em 1986, que dá início à narrativa que contém mais de mil páginas. Assim como no começo do livro, o primeiro filme, de 2017, se inicia do mesmo modo, com a marcante cena envolvendo Georgie(Jackson Robert Scott) perdendo o braço ao tentar resgatar o seu barquinho de papel das mãos do Pennywise (Bill Skasgard).

Igualmente marcante, a cena inicial da continuação se aprofunda em questões contemporâneas e, igualmente relevantes. Sem mais delongas, o filme começa com um casal gay, no parque de diversões, aproveitando a noite. Contudo, isso desperta a ira de um grupo de jovens que ali estavam. A intolerância e o desrespeito fazem com que o casal sofra as consequências. Os jovens agridem o casal e o medo do cônjuge, em perder o seu parceiro, asmático, acaba por atrair o retorno do Pennywise, após 27 anos do incidente do primeiro filme.

Ao saber do retorno da Coisa, Mike (Isaiah Mustafa) liga para cada um dos membros do Losers’ Club (Clube dos Otários), pedindo que eles retornem para Derry, em função da promessa que tinham feito, de matar o palhaço caso ele retornasse. A recepção, por parte dos amigos é imediata, mas um deles, Stanley (Andy Bean) comete suicídio, o que remete à ideia de pavor diante da possibilidade de retornar para Derry.

Após todos os contatos e “desencontros” envolvendo os Losers’, o grupo finalmente se reúne e há o primeiro momento de dúvida: por que eles não conseguem se lembrar do passado? O que há de tão assustador que foi “apagado” de suas memórias? Com exceção de Bill (James McAvoy), todos desistem da empreitada quando percebem que terão de encarar A Coisa novamente.

Beverly (Jessica Chastain), já no hotel, revela que sonhou com a morte de Stanley, bem como viu todos os membros do grupo morrerem da mesma maneira, por culpa da influência de Pennywise. Esse fator é o diferencial, juntamente com a conversa entre Bill e Mike, que motiva os demais integrantes a permanecerem em Derry. E, a partir desse momento, cada um deles começa a viver momentos de provação, necessários para enfrentar A Coisa.

Antes de continuar, é preciso dizer que tudo em It é alegórico, metafórico. Há uma metalinguagem para a psicologia que reflete os medos dos personagens. O terror é real porque não envolve, tão somente um palhaço assustador, mas sim, coisas mundanas. Pennywise, em si, representa a junção dos medos daquelas crianças que cresceram sem enfrentar seus temores e, uma vez adultos, têm de retomar essa “ferida” exposta há muito. O retorno da Coisa simboliza os traumas até então adormecidos.

Em resumo, o filme possui múltiplas camadas de entendimento, e funciona em todas elas: uma história de terror envolvendo um palhaço assustador; a história de crianças que cresceram traumatizadas, mas que juntas aprendem a lidar com esse trauma; e, por fim, a junção dos dois planos, onde o palhaço é uma metáfora das dificuldades da vida.

Em se tratando do elenco, da versão adulta dos personagens, o destaque fica por conta de Bill Hader, que interpreta Richie. Se no primeiro filme, Finn Wolfhard (astro de Stranger Things) roubava a cena, Hader faz o mesmo, sendo o alívio cômico da narrativa. James McAvoy e Jessica Chastain entregam atuações contidas, sem grandes momentos que mereçam ênfase.

Em contrapartida, Isaiah Mustafa é o mais prejudicado em função do roteiro, que o utilizava como catapulta para juntar o grupo e explicar os eventos sobrenaturais envolvendo o Pennywise. Não há qualquer desenvolvimento para além disso. Por falar no palhaço (risos), Bill Skasgard entrega outra excelente atuação, com trejeitos únicos, como os olhos que se movem em diferentes direções e a entonação da voz, que ora é grave, ora é suave.

Cabe ressaltar que Stephen King faz uma ponta no filme, como vendedor de uma loja de antiguidades. Há, inclusive, uma metalinguagem envolvendo o autor e o personagem do James McAvoy (Bill), que é um escritor e produtor conhecido por seus finais nada apreciados, tal qual Stephen King e alguns de seus livros (vide O Iluminado e a confusão envolvendo a adaptação do filme do Stanley Kubrick).

It A Coisa – Capítulo 2 se destaca por ser uma adaptação fidedigna da obra original, concluindo com maestria a visão cinematográfica do diretor Andy Muschietti, certamente merecendo um lugar de destaque entre os filmes de terror contemporâneos, que serão lembrados daqui à alguns anos como definidores de uma geração.

NOTA: 9/10

Ficha Técnica:

It A CoisaCapítulo 2 (It Chapter Two)

Duração: 169 minutos

Gênero: Terror

Diretor: Andy Muschietti

Estrelando: Jessica Chastain, James McAvoy, Bill Hader, Bill Skasgard e outros

Estreia Mundial: 05 de setembro de 2019.

 

 

Equipe Canal In

Repórter / Resenha: Marco Dias

Editor: Ricardo Henrique 

Fotos: divulgação 

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