Resenha IN do Filme Obsessão (Greta, 2018)

 

 

“Ame enquanto puder! A hora virá quando estiver junto ao túmulo e aos prantos.”

 

 

Trilhas sonoras sempre merecem destaque e reconhecimento em filmes, principalmente quando são bem executadas no decorrer da trama. Para falar de Obsessão (Greta, 2018), é necessário, inicialmente, fazer um breve apanhado sobre as canções presentes na obra, pois elas representam a alma da história e ditam o ritmo da mesma, criando no espectador a sensação gradativa de urgência a que estão submetidas as personagens da Chloe Grace Moretz e da Maika Monroe.

 

A cena de abertura de Obsessão é uma filmagem da nuca da personagem Greta (interpretada pela Isabelle Huppert). Vemos o seu caminhar, enquanto somos embalados pela música “Where Are You”, da Julie London. Em certa maneira, essa canção nos diz muito à respeito de Greta, da maneira como ela enxerga o mundo e as pessoas que, de uma forma ou de outra, saíram da sua vida (vide sua filha, Nicola).

 

Logo na sequência, enquanto ainda somos embalados pela música da Julie London, conhecemos a personagem Frances (Chloe Grace Moretz) e, ao longo da trama, também percebemos que a letra da canção também diz muito à seu respeito, uma vez que esta perdeu a mãe e ainda não conseguiu se “recuperar” do sofrimento, da ausência.

Enquanto voltava para casa após mais um dia de trabalho, Frances percebe que alguém (Greta) esqueceu uma bolsa em um dos bancos do metrô. Ela, então, pega a bolsa e a leva para casa, com o intuito de devolver para a dona no dia seguinte. Sua amiga e colega de apartamento, Erica (Maika Monroe), acha uma péssima ideia e sugere que elas gastem o dinheiro encontrado, descartando todo o resto dos pertences (uma identidade, alguns papéis e uma cartela de medicamentos). Determinada, Frances descarta essa possibilidade de imediato.

No dia seguinte, Frances vai até a casa de Greta para devolver a sua bolsa. Extremamente lisonjeada (coisa que, independentemente de atuação, a Isabelle Huppert faz muito bem), Greta a convida para entrar e tomar uma xícara de café. Frances aceita e, a partir desse momento, uma relação de admiração se inicia. Encantada por Greta e suas inúmeras qualidades (ela sabe tocar piano e demonstra um amadurecimento/experiência enormes), Frances sente que pode fazer mais por aquela “ingênua” e “frágil” senhora.
Greta sabe exatamente tudo o que precisa dizer para Frances (ou melhor, tudo o que ela precisa/quer ouvir). Enquanto tocava piano, Greta começa um monólogo sobre o que aquela canção (Liebestraum N. 3) representa. Ela diz para Frances que vive um eterno sonho de amor, pois isso é tudo o que o amor é capaz de nos deixar: um sonho, uma lembrança. Quando as pessoas se vão, isso é tudo o que fica.

Liebestraum é uma canção/peça de Franz Liszt dividida em três partes, que demonstram diferentes perspectivas acerca do amor: a primeira parte exalta, a segunda parte erotiza e a terceira parte aborda uma incondicionalidade nesse amor. E o amor incondicional está no subtexto do filme. Se, de um lado temos Frances, que perdeu sua mãe e ainda não conseguiu aprender a lidar com a ausência de sua genitora, por outro temos Greta, que nos traz a perspectiva do amor incondicional e doentio que nutria por sua filha, Nicola. A ausência da filha a transforma em alguém obcecada por companhia. Nessa perspectiva, o amor é um sonho porque não podemos tê-lo. As personagens se complementam.

Assim como acontece no filme Ma (2019), Obsessão também faz uso das redes sociais para demonstrar a exposição que as pessoas se submetem ao compartilhar, sem pudor, todos os detalhes de suas vidas. Por trás de sua aparência ingênua e indefesa de uma senhora, Greta esconde uma personalidade obsessiva, capaz de “stalkear” toda a vida de Frances no Facebook.

A relação entre Greta e Frances se desenvolve positivamente, com cumplicidade, até o primeiro momento de virada do filme, que acontece durante um jantar. Frances abre um armário na casa de Greta, à procura de velas para pôr sobre a mesa, mas acaba encontrando várias bolsas, idênticas à que ela encontrou no metrô, exatamente com os mesmos pertences dentro (a identidade e uma cartela de remédios). No verso das bolsas, havia o nome e o número de telefone das pessoas que devolveram os pertences (entre elas, o nome de Frances). O jantar continua, mas Frances logo diz que não está se sentindo bem, conseguindo escapar da casa de Greta.


Depois desse primeiro momento de virada do filme, Isabelle Huppert começa a brilhar com a sua atuação. Entregando uma personagem obsessiva (como o próprio título nacional do filme sugere), a atriz impressiona por dizer muito apenas com a sua expressão. O olhar intimista, as sobrancelhas curvadas, a postura ereta, tudo influencia para que o espectador compre a ideia de que aquela senhora é capaz de perseguir compulsivamente uma jovem por volta dos seus vinte anos.

Após as inúmeras tentativas de perseguir Frances, através de ligações, mensagens de texto, acampando na frente do restaurante onde ela trabalha e, por fim, indo até a sua casa, Greta alerta que tentou conversar, mas não teve sucesso. Logo, ameaça Frances dizendo que as pessoas não podem continuar a fazer o que fazem com ela (saindo da sua vida).


O segundo momento de virada na trama acontece quando Greta começa a perseguir Erica, amiga de Frances. Ela a persegue, tirando fotos e enviando para Frances que, desesperada, entra em contato imediato com a amiga. Contudo, o ponto alto dessa segunda mudança no filme acontece durante uma cena no restaurante onde Frances trabalha.


Greta, sentada em uma das mesas, exige atendimento exclusivo por parte de Frances. Ao som de The Four Seasons, de Vivaldi, Isabelle Huppert demonstra porque é uma das melhores atrizes francesas de sua geração. Em um ataque de fúria, Greta destrói as taças, os pratos e a mesa onde está sentada, dizendo aos berros que Frances precisa superar a perda da sua mãe e aceitar o amor que ela está disposta a dar. Em uma interpretação subjetiva do escritor que vos fala, entendo que a escolha pela sinfonia de Vivaldi, além da sua estridência, representa também os estados de espírito de Greta, inicialmente paciente e compreensiva até o seu surto psicótico, totalmente compulsivo-obsessivo.
O terceiro e último grande momento de virada do filme acontece com o sequestro de Frances. Greta invade a sua casa e a dopa, levando-a facilmente. Nesse momento, há aqui uma tentativa de plot twist, fazendo o espectador pensar que tudo não passava de um sonho de Frances. Contudo, da mesma forma que esse plot se inicia, ele acaba, não gerando tempo suficiente para que o espectador chegue a se importar ou crer nessa possibilidade (o que torna essa “surpresa” em algo desnecessário).

 

O final do filme, contudo, decepciona. Se temos uma atuação impecável de Isabelle Huppert durante uma hora e vinte minutos de filme, os 15 minutos finais põem tudo a perder com uma solução preguiçosa de roteiro, que chega a ser incoerente com a construção da personagem que vinha sendo construída.

 

Obsessão (Greta, 2018) é um filme dessa nova safra de suspense/terror psicológico que inovam pela situação a que submetem os seus personagens. A trilha sonora e a atuação da Isabelle Huppert elevam o filme para um patamar de excelência. Contudo, o roteiro preguiçoso na parte final e as lacunas deixadas que só se explicam na mente do espectador (se esse se esforçar para tanto) trazem o filme para a realidade que ele se insere: como um bom entretenimento, nada mais que isso.

NOTA: 7/10
FICHA TÉCNICA:
Obsessão (Greta, 2018)
Duração: 108 minutos
Direção: Neil Jordan
Gênero: Suspense/Thriller
Estrelando: Isabelle Huppert, Chloe Grace Moretz, Maika Monroe e outros.

 

 

 

Equipe Canal In

Repórter / Resenha: Marco Dias

Editor: Ricardo Henrique 

Fotos: divulgação 

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