Resenha “IN” do Filme Simonal (Simonal, 2018)

São as nossas escolhas, mais do que as nossas capacidades, que mostram quem realmente somos. – Alvo Dumbledore

A saga Harry Potter sempre proporcionou boas recordações para os fãs, seja pela união entre o protagonista e seus amigos, seja pela constante exposição aos conceitos de bom e mau ou, ainda, pelas inúmeras lições que o Diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, Alvo Dumbledore, transmitia para os alunos (e para o público).

Dentre as inúmeras frases proferidas pelo personagem da J. K. Rowling, uma delas, proferida no filme “Harry Potter e a Ordem da Fênix”, se encaixa com precisão para definir a derrocada da carreira de Wilson Simonal: “A indiferença e o abandono muitas vezes causam mais danos do que a aversão direta”.

Wilson Simonal foi um dos grandes nomes da música brasileira nos anos 60-70. Seu talento era indiscutível. Contudo, suas escolhas no campo pessoal sempre foram alvo de críticas, ainda mais levando-se em consideração o período delas (ditadura militar). Em particular, muito me admira o atual presidente da república não ter exaltado a figura de Simonal como um dos grandes “ajudantes” da nação brasileira (risos).

Simonal (2018), filme biográfico, conta a vida e obra do cantor e as polêmicas que envolveram a sua trajetória.

O filme começa com o cantor, interpretado por Fabrício Boliveira, tomando a primeira das suas impactantes decisões: abrir mão dos “Dry Boys”, a banda da qual fazia parte com os seus amigos, após conhecer Carlos Imperial (Leandro Hassum), um produtor com relativa fama no mundo da música. Ele recomenda que Simonal comece a trabalhar como seu “assistente”, mas que dado o seu potencial, em breve ele se tornaria algo a mais. O cantor aceita a proposta, alegando que era uma oportunidade imperdível (para tristeza dos amigos).

Ainda como assistente de Imperial, Simonal conhece aquela que seria a mulher da sua vida, Tereza Pugliesi (Isis Valverde). Descobre, contudo, que esta mantinha um caso com seu chefe (o que, hoje em dia, poderia ser denominado como “contatinho”).

Cantando inicialmente em bares e pequenos restaurantes, o talento de Simonal logo é reconhecido e ele tem de tomar uma nova decisão: continuar como ajudante do Imperial ou seguir carreira como cantor com novos agentes. Após a escolha, sua vida muda completamente e Simonal começa a fazer grandes espetáculos, sendo reconhecido nacionalmente como um artista fabuloso, de talento inquestionável.

Como todo grande artista, inúmeras pessoas começam a surgir na vida por interesse, incluindo mulheres. E Simonal se deixa levar por essas influências, levando-o a uma discussão com sua mulher, que entra em depressão, consumindo produtos para preencher o vazio causado pela ausência do seu marido.

No auge de sua carreira, Simonal fecha inúmeros contratos (dentre eles, um com a Shell, bastante evidenciado no filme), além de “engolir” Sérgio Mendes em um show onde era mero convidado – mas que acabou tornando-se protagonista.

Ao retratar esse momento da carreira de Simonal, onde ele consegue cativar o público mais do que o artista principal (Sérgio Mendes), o filme faz uso de cenas reais, gravações da época, onde o Maracanãzinho, o local onde o show aconteceu, estava lotado, e a plateia ovaciona o cantor, pedindo para que ele retorne ao palco. Esse elemento, em especial, evidencia o quão famoso e prestigiado Simonal tinha se tornado.

Tudo começa a mudar quando Simonal se envolve em uma confusão por conta de uma música com um discurso político por trás (ou melhor, ao tentar adotar a narrativa dos negros, Simonal é reprimido, sendo aconselhado por agentes do DOPS a parar com essa canção).

Impende destacar que Simonal, assim como a sua própria abertura já menciona, é um filme sobre a música na época da ditadura militar e, como tal, essa é uma característica bastante evidenciada. Contudo, há um deslize nessa abordagem: as consequências e a decorrência delas. Simonal sofreu um massacre social não por conta da ditadura, mas em função de suas atitudes. Todas as suas escolhas o levaram à derrocada da fama.

Havia em Simonal uma enorme soberba. É bem verdade que, baseado em tudo o que ele conquistou, querer se vangloriar e esbanjar é algo natural. Contudo, o seu desejo e a necessidade de querer sempre mais o levaram a uma situação intragável. Se havia uma extravagância no palco, quando essa começou a representar a sua vida pessoal, isso se tornou um problema, que o levou, justamente, a brigar com a sua mulher, com seus amigos e funcionários e, principalmente, a não enxergar tudo o que estava à sua frente (e o quão escroto ele estava sendo com as suas atitudes).

Retomando os ensinamentos de Dumbledore, tempos difíceis aguardavam Simonal e, entre o que era certo e o que era fácil, ele optou por esta última opção. O filme, contudo, tenta suavizar sua relação com os agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Para piorar a situação, Simonal ainda se enxergava como vítima de uma conspiração racial. Paranoia ou não, o fato é que o filme desliza ao recontar o envolvimento do cantor com a ditadura militar.

Em uma perspectiva mais ampla, ainda que se desconsidere completamente o envolvimento de Simonal com o DOPS, sendo ou não informante, apenas a ideia de “sequestrar” alguém para fazê-lo confessar algo que sequer cometeu já é absurda por si só. Não há como “passar pano” para uma atitude dessas, principalmente vindo de um cantor renomado.

Nos aspectos técnicos, a direção se faz valer de dois belíssimos planos sequência, um deles de tirar o fôlego, quando Simonal sai do palco para “molhar a garganta”. A recriação das cenas envolvendo espetáculos e apresentações do cantor são fidedignas e transportam o espectador para a época (até mesmo quem não conhece o cantor vai se identificar com o período em que o filme se passa).

Fabrício Boliveira está muito bem ao interpretar o cantor Simonal. Ele consegue recriar os trejeitos do artista, com uma atuação fidedigna, simples, mas objetiva. Há uma dedicação em executar os movimentos de palco (ainda que poucos) com rigidez performática. Se cantar não é um problema (até porque seria um desperdício com a voz original), o restante da performance artística facilita a aceitação por parte do público.

Isis Valverde, par romântico de Fabrício, tem que dar vida a uma personagem introspectiva, que pouco fala, mas que sente em demasia. A dor em seu olhar é evidente e as frustrações por viver uma vida reclusa e com migalhas de amor é transmitida pela discreta atuação da atriz.

Leandro Hassum, que faz uma participação especial no filme, entrega uma boa atuação, sem qualquer trejeito cômico forçado (característica de suas atuações pretéritas). Confesso que queria mais um pouco de tempo em cena dele.

Simonal é mais uma das cinebiografias brasileiras, gênero que tem se destacado dentre as produções nacionais. Assim como Fabrício Boliveira dispõe, Simonal é um filme com uma história necessária, que precisa ser contada. Nossas escolhas têm consequências e precisamos estar preparados para elas.

Nota: 7,5/10

Ficha Técnica:

Simonal (2018)

Duração: 105 minutos

Gênero: Biografia, Drama, Musical

Direção: Leonardo Domingues

Estrelando: Fabrício Boliveira, Isis Valverde, Leandro Hassum, Caco Ciocler e outros.

Estreia Nacional: 08 de agosto de 2019.

 

Equipe Canal In

Repórter / Resenha: Marco Dias

Editor: Ricardo Henrique

Fotos: divulgação 

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