SÉRIE INTREVISTA – JOVENS PERIFÉRICOS

 

Certa vez, um garoto africano, morador de uma região muito pobre do continente, se vê inconformado em sofrer tantas dificuldades com sua família. Enfrentando adversidades climáticas e sociais, ele tem a engenhosidade de criar um equipamento que muda definitivamente a sua realidade e a dos moradores de sua aldeia. Parece até enredo de filme, não é mesmo?! E é, mas com uma pitada de vida real, se trata do longa britânico “O menino que descobriu o vento”, que conta a história do inovador Willian Kamkwamba  e que serve de inspiração para Jadison Palma e Ildo Oliveira, idealizador e vice-presidente do projeto Jovens Periféricos. Ambos possuem uma coisa em comum com o protagonista: sonhar em transformar a comunidade onde vivem.

Jovens, negros, oriundos do subúrbio soteropolitano, mais precisamente do bairro de Fazenda Coutos, Jadison e Ildo mantém, sem apoio governamental, a instituição que leva cultura e conhecimento para a população desassistida, com aulas de moda, teatro, dança, canto, esporte e empreendedorismo. Confira a INtrevista completa abaixo:

 

Canal IN: Como tudo começou? De onde vocês tiraram a ideia e a coragem de criar um projeto social?

Jadison Palma (Jovens Periféricos): O projeto surgiu da marca de roupas que criei em 2016, a qual levava as iniciais do meu nome JP. Criei 30 peças de roupa e convidei modelos  de 30 bairros diferentes para um desfile. Toda a estrutura foi montada no meu bairro, Fazenda Coutos, e o evento teve um público de quase 2 mil pessoas. Depois, recebi convites para apresentar o desfile em teatros, e a partir daquele dia descobri que poderia fazer algo social, assim foi criado o projeto.

C.I.: De que forma vocês atuavam?

Jadison Palma (JP): Levamos o projeto para as escolas criando o programa “Moda Periférica Colegial”, onde os alunos vestiam minhas roupas e os professores elegiam a garota e garoto periférico, com isso ganhamos uma sala no teatro plataforma, nossa casa, e tivemos  que mudar a vertente da marca, mudei para JP exclusive , e o projeto social passou a se chamar Jovens Periféricos. Hoje temos 3 anos de marca e dois anos de projeto que vem numa crescente maravilhosa, batemos dez mil seguidores no instagram, que era uma de nossas metas e temos uma visibilidade muito grande com os jovens de Salvador,  porque fazemos atividades para toda cidade com intuito de tirar as pessoas da vulnerabilidade e proporcionar uma melhora de vida. Atualmente temos parcerias com faculdades e cursos como SENAI e SENAC com objetivo de encaminhar os jovens para o mundo acadêmico.

C.I.: As peças de roupa são criadas por você?

Jadison Palma (JP): Sim, sou eu quem faço, mas não tenho nenhuma especialidade, ainda. Tudo sai da minha mente e força de vontade, mas estou entrando na faculdade para cursar publicidade. Consegui o curso  através de uma oportunidade de fazer um evento nem uma faculdade e aproveitei a ocasião para conhecer os coordenadores e sugeri uma parceria: divulgar a instituição de ensino em nosso site que tem quase 2 mil acessos diários e indicar alunos em troca de bolsas de estudo, porque sabemos que o índice de desemprego no país é muito grande, ainda mais na nossa cidade e a mensalidade de uma faculdade é quase o valor do salário mínimo.

C.I.: Você sempre se interessou pelo  mundo da moda ou entrou nele em função abrir portas para o projeto?

Jadison Palma (JP): Sempre gostei de me vestir bem, e percebia que muitas lojas vendiam roupas comuns, então criei uma camisa com minha sigla e com design diferente, e muitas pessoas começaram a perguntar e pedir pra que fizesse, nessa época, em 2015, a galera começou a valorizar a cultura black, muitas pessoas assumindo a negritude, então criei uma estratégia de  estampar as roupas com rostos negros. Estava desempregado e esse era o modo que eu ganhava dinheiro. Através dessa iniciativa, eu tive a ideia de criar o projeto.

C.I.: Qual é o cenário atual do projeto?

Atualmente temos 200 alunos no projeto, com sede no centro de cultura, futuramente teremos uma sede em Simões filhos, Lauro de Freitas é uma  possibilidade, e o objetivo é aumentar o número de núcleos , tem alunos não só do subúrbio, mas de vários bairros de salvador e região metropolitana, nesses espaços temos aulas, workshops e palestras de moda, teatro, dança, canto, esporte e empreendedorismo, isso sem ajuda do governo.

 

Jadison Palma (JP): Eu sempre digo para os alunos que é preciso estudar, não adianta querer ser empoderado, ter cabelo Black, boa auto estima e roupa bacana, sempre ensino pra eles que o verdadeiro empoderamento é chegar na redação do Enem e tomar nota máxima, concluir a faculdade, passar no vestibular, é não só sonhar, é realizar tbm. Sempre valorizando a autoestima, a cor da pele, o cabelo e, sobretudo, a família.

 

C.I.: Como vocês lidam com a falta do patrocínio governamental ? Como mantém o projeto?

Ildo Oliveira (JP): Enquanto muitos têm o esqueleto e não tem o funcionamento da coisa, nós temos tudo isso e não temos o incentivo, há muitos projetos que recebem verbas, mas não transformam vidas . Nós temos o trabalho, a realização dos sonhos, envolvimento, mas não temos verba.  Tomamos uma iniciativa e fizemos nosso instituto independente disso, e nos sentimos orgulhosos, porque mostra que não temos essa visão capitalista, claro que temos a consciência de que sem dinheiro nada acontece, mas isso fica em segundo plano, primeiro salvamos vidas e depois vamos atrás de recursos. Sobrevivemos com recurso próprio, algumas ajudas e parcerias.

C.I.: Como é a relação de vocês com a periferia?

Jadison Palma (JP): Dentro da periferia existem vários diamantes que precisam ser descobertos e a pegada do nosso projeto é essa: descobrir novos talentos para que eles possam ser bem aproveitados e possam servir de exemplo para os que estão nascendo por lá. Toda ação que fazemos a comunidade abraça, sentimos que os moradores acreditam que esse projeto da certo. Sabemos que, infelizmente, a periferia  tem um índice grande de jovens que desviam o caminho e vão pro mundo das drogas, então tentamos recrutar esses jovens, dar opção de escolha para eles. Muitas pessoas me param na rua, agradecem, alguns me intitulam de líder comunitário e isso é gratificante.

 

C.I.: Você fala muito em transformação, conta como sua vida foi transformada

Jadison Palma (JP): Pra você mudar sua vida é preciso de uma palavra de incentivo, e através de um conselho de Ildo eu comecei a estudar e através disso eu percebi que posso ajudar minha comunidade.

C.I.: E hoje, nessa posição, quais são suas palavras de incentivo?

Jadison Palma (JP): Eu sempre digo para os alunos que é preciso estudar, não adianta querer ser empoderado, ter cabelo black, boa auto estima e roupa bacana e não buscar conhecimento. Sempre ensino para eles que o verdadeiro empoderamento é chegar na redação do Enem e tomar nota máxima, passar no vestibular, concluir a faculdade, é não só sonhar, é realizar. Sempre valorizando a família.

C.I.: Quais são os planos para o futuro?

Ildo Oliveira (JP): Todo mês temos um evento temático, esse mês por exemplo, o tema foi “A periferia te abraça”, onde contamos tudo que existe na comunidade e a importância da união. Em agosto faremos workshops voltados à moda, teatro, música, além de levar profissionais de direito para alertar a comunidade sobre seus direitos, professores de português para dar dicas para o Enem, produtores de moda entre outros profissionais que possam estimular o desejo de crescimento nos jovens. 

 

 

Equipe Canal In

Repórter Lucas Gomes

Editor Ricardo Henrique 

Foto destaque Pedro Freitas

Fotos Canal In / Instagram 

Compartilhe essa postagem