Teatro

Formação gratuita expande possibilidades para teatro negro baiano independente

A residência artística gratuita do projeto “Ordem Questionada”, idealizada pelo Coletivo Subverso das Artes, acaba de entrar em sua segunda etapa formativa para dar continuidade ao processo de capacitação de artistas negros baianos. Neste fim de semana, o Arquivo Público de Salvador, no Comércio, recebe uma nova rodada de atividades, com oficina de Formação de Público no sábado (7), e oficina de Cenografia no domingo (8). A nova fase do projeto aprofunda o olhar para áreas estruturantes do fazer artístico, fortalecendo não apenas a criação em cena, mas também a sustentabilidade e a circulação de teatros negros independentes na Bahia.

Com encontros semanais desde novembro de 2025, o projeto já concretizou um primeiro ciclo dedicado às linguagens criativas, dividido entre oficinas de Escrita Teatral, Atuação, Direção Teatral e Direção Musical. Já no segundo ciclo, que acontece até o final abril, os participantes poderão ampliar ainda mais o aprendizado ao incorporar dimensões estratégicas dos bastidores, como Comunicação Estratégica (Prof: Fábio Lucas), Formação de Público (Prof: Potira), Cenografia (Prof: Clara Matos) e Gestão Teatral (Prof: Nell Araújo). A proposta é garantir acesso a uma formação completa, da criação à gestão, fortalecendo a autonomia e a permanência desses artistas no cenário.

Para a coordenadora do Coletivo Subverso das Artes, Laura Sacramento, além da formação técnica, a residência se estabelece enquanto um espaço de conhecimento colaborativo, com o objetivo de que os participantes possam ter independência em seus trabalhos artísticos e, assim, alcancem mais oportunidades na área. Ela destaca ainda que a proposta da interdisciplinaridade das oficinas amplia o olhar dos artistas negros, que ainda estão sujeitos ao silenciamento e invisibilidade. 

“A coletividade é muito importante para a sobrevivência não só da arte, como do próprio artista. Precisamos uns dos outros para cultivar nossas artes. O teatro é prova viva de que não se faz arte sozinho, ainda que estejamos produzindo um monólogo, precisamos de uma série de agentes da arte que se complementam, como o produtor, o diretor teatral, o diretor musical, assistentes de direção, os técnicos de som, palco, iluminação etc. A coletividade e nossa expressão artística enquanto corpos negros conscientes de nossas subjetividades são os elementos que nos fortalece politicamente”, declara.

JORNADA DE AUTOCONHECIMENTO, TROCA E ENTREGA – Criada em Nova Brasília, Estrada Velha do Aeroporto, e atual moradora do Nordeste de Amaralina, a residente Jaqueline Santana, de 40 anos, revela que, inicialmente, sua intenção era participar apenas do segundo momento do curso, que dialoga diretamente com sua área de atuação em gestão e produção cultural, mas decidiu encarar o desafio da residência completa e explorar novas perspectivas. “Descobrir em mim um corpo e uma mente criativa no teatro é algo totalmente fora da curva do que eu sempre imaginei para mim, e ao mesmo tempo muito transformador”, conta.

“Está sendo um período de muito aprendizado, troca e entrega. A residência tem ampliado minha visão artística e profissional. Além de fortalecer minha atuação na gestão e produção cultural, agora também me vejo com possibilidades na criação cênica, na escrita e na direção. Isso abre portas para novos projetos, parcerias e caminhos de expressão, além de fortalecer minha autoestima e confiança pessoal”, comenta Jaqueline. 

FORMADORES ATENTOS – Para o professor Fábio Lucas Bezerra dos Santos, a Comunicação Estratégica é uma comunicação que muitas vezes é subvalorizada e olhada em segundo plano, mas que tem uma importância substancial dentro do processo criativo e de produção. Ele explica que seu plano de ensino será estruturado em dois pilares práticos: Vendas e Captação e Visibilidade Digital. O conjunto vai permitir que os estudantes aprendam a estruturar um plano de ação e aplicar o que for sendo estudado e abordado durante a oficina, de forma prática e acessível, trazendo para o contexto e para a realidade dos alunos. 

Segundo Fábio, o projeto “Ordem Questionada”, como o próprio nome já diz, foi criado para fazer a diferença dentro de um sistema que limita e restringe. “Projetos como este são de extrema importância, pois fomentam, impulsionam e direcionam o potencial de jovens que acabam infelizmente não sendo vistos com a atenção que deveriam. No Brasil, tem muita gente talentosa que muitas vezes só precisa de espaço e oportunidade para poder se mostrar e se desenvolver com as ferramentas necessárias para decolar”, avalia.

Nas oficinas de Formação de Público, a professora Ana Paula Potira busca trazer o conceito de público como coautor da experiência artística, a partir das relações entre cultura, território e identidade. “Não é possível pensar formação de público sem considerar como as desigualdades estruturais impactam o acesso e a participação cultural. O objetivo é contribuir para a formação de artistas também como agentes culturais críticos e conscientes”, pontua.

Enquanto exemplo de artista impactada pelo Grupo de Teatro Popular Filhos da Rua, um projeto dedicado à valorização da cultura popular e do acesso à arte, Potira afirma que iniciativas como o Ordem Questionada reforçam que artistas negros periféricos têm direito não apenas à expressão, mas à permanência e ao reconhecimento profissional.

“A residência amplia horizontes ao inserir os jovens nas engrenagens que movimentam o setor cultural, como financiamento, mediação, comunicação e desenvolvimento de projetos. Para juventudes negras periféricas de Salvador, esse conhecimento pode representar a possibilidade concreta de não precisar escolher entre sobreviver e criar”, completa.

AUTONOMIA NA CRIAÇÃO – A próxima etapa do projeto, “Circula e Questiona”, é voltada à criação, laboratório e circulação das peças teatrais resultantes das oficinas. Os espetáculos construídos pelo Coletivo Subverso das Artes, com participação dos residentes e dos ouvintes interessados, serão apresentados nos bairros participantes, garantindo a materialização do processo formativo e o compartilhamento das produções nas comunidades de Santo Inácio, Nova Brasília, Engenho Velho da Federação, Candeal e Engenho Velho de Brotas, em junho de 2026.

Ao longo de seis meses, a residência “Qualificando a Desordem”, primeira etapa formativa do projeto “Ordem Questionada”, pretende consolidar um espaço de troca e construção coletiva, fortalecendo redes entre artistas, educadores e comunidades. Para além de formar novos criadores, o projeto reforça a arte como ferramenta de transformação social e afirmação de identidades negras em Salvador. O projeto tem duração total de oito meses, incluindo residência, produção e circulação.

O projeto “Ordem Questionada” foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc Bahia e tem apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado via PNAB, direcionada pelo Ministério da Cultura – Governo Federal.

AGENDA RESIDÊNCIA – MARÇO

7 DE MARÇO (SÁBADO)

Oficina: Formação de Público

Professor: Potira

Horário: 09 às 11h

Local: Arquivo Público de Salvador – Sala Makota Valdina, Auditório 01

8 DE MARÇO (DOMINGO)

Oficina: Cenografia

Professor: Clara Matos

Horário: 09 às 11h

Local: Arquivo Público de Salvador – Sala Makota Valdina, Auditório 01

14 DE MARÇO (SÁBADO)

Oficina: Gestão Teatral

Professor: Nell Araújo

Horário: 09 às 12h

Local: Arquivo Público de Salvador – Sala Makota Valdina, Auditório 01

15 DE MARÇO (DOMINGO)

Oficina: Comunicação Estratégica

Professor: Fábio Lucas

Horário: 09 às 11h

Local: Arquivo Público de Salvador – Sala Makota Valdina, Auditório 01

21 DE MARÇO (SÁBADO)

Oficina: Formação de Público

Professor: Potira

Horário: 09 às 11h

Local: Arquivo Público de Salvador – Sala Makota Valdina, Auditório 01

22 DE MARÇO (DOMINGO)

Oficina: Cenografia

Professor: Clara Matos

Horário: 09 às 11h

Local: Arquivo Público de Salvador – Sala Makota Valdina, Auditório 01

28 DE MARÇO (SÁBADO)

Oficina: Gestão Teatral

Professor: Nell Araújo

Horário: 09 às 12h

Local: Arquivo Público de Salvador – Sala Makota Valdina, Auditório 01

29 DE MARÇO (DOMINGO)

Oficina: Comunicação Estratégica

Professor: Fábio Lucas

Horário: 09 às 11h

Local: Arquivo Público de Salvador – Sala Makota Valdina, Auditório 01

Equipe Canal In

Repórter / Editor: Ricardo Henrique

Foto: Amanda Chung