Coluna DestINos – Souto Soares de Dona Bia

Oiê, desbravadores, tudo bem?! Da última edição da coluna pra cá, nós somos só saudade de vocês. 

Continuando nossas expedições por uma Bahia mais profunda e “fora” das grandes rotas turísticas, chegamos a cidade de Souto Soares, no semiárido baiano. Sem chuva há mais de 6 meses, seca e empoeirada, a cidade reserva incríveis paisagens naturais e a melhor anfitriã – improvável – que se pode ter; Dona Bia. Adiante, você vai entender bem porque ela é o destaque desta edição. 

COMO CHEGAR:

Para quem decidir ir de carro, pegando inicialmente a BR 324, na saída de Salvador, e depois a BA 052, é possível chegar a Souto Soares em aproximadamente 6h.  Outra alternativa é ir de ônibus comercial. A empresa que faz “linha” para lá é a Emtram / Viatram e as passagens custam a partir de R$120 e podem ser adquiridas via WhatsApp. Saiba mais: https://www.emtram.com.br/ ou no WhatsApp 11 99574-9058 

A CIDADE – Souto Soares  

Então, vamos viajar com a gente!? Desta vez, o destINo escolhido fica no seminário baiano próximo a cidades como Seabra e Iraquara no território da Chapada Diamantina; esta edição da Coluna DestINos desembarca em S O U T O  S O A R E S, terra devota do São João Batista . 

Cidade do Licuri, Souto Soares fica a 497 km da capital, Salvador – seguindo pela BR 324 e depois BA 052 – que dá uma média de 7 horas de viagem. Com população estimada em pouco mais de 15.800 habitantes – dados do IBGE de 2010 – o município tem 59 anos e faz aniversário a cada dia 5 de julho. Durante o período junino os festejos (foto) acontecem de 21 a 24, sendo que o último dia é dedicado ao padroeiro da cidade. Foi em 1962 que o povoado de Licuri, se desmembrou de Seabra dando origem ao município de Souto Soares, nome este que foi dado em homenagem ao médico, pecuarista e político João Souto Soares

A cidade possui 47 comunidades divididas em dois distritos: Segredo e Cisterna. Além da sede. 

Socialmente, a população está bem assistida. A cidade possui agências bancárias do Banco Bradesco, cartório de ofício, além da cobertura oportuna de uma casa lotérica. O destaque fica para a Biblioteca Pública Municipal de Souto Soares, que está localizada numa das principais praças do município, que funciona de segunda a sexta, das 8 às 17h e oferece um bom volume de livros para o acesso dos estudantes locais, bem como dos amantes da leitura. Segundo Rosalvo Filho, que atende o público leitor, em Souto Soares o gênero mais lido é o romance. 

Quanto à rede hoteleira, é pequena, dispondo apenas de três hotéis / pousadas. Falamos mais sobre isso adiante. 

A economia local se destaca pela agricultura familiar. A produção – feijão, milho, mamona, mandioca e cana de açúcar –  é pequena, porém proporcional ao consumo de seu mercado interno. A cana de açúcar, por exemplo, é utilizada para a produção de cachaça artesanal e de rapadura, como você verá mais adiante. 

Coisa boa de fazer, é visitar a feira livre da cidade que ferve todas as quintas-feiras. Tem produto de tudo quanto é tipo, desde as tradicionais frutas e verduras, a roupas, artesanatos e eletrônicos. 

Parte do que estava sendo vendido na época da nossa visita, vinha de municípios vizinhos, uma vez que Souto Soares sofria com uma terrível seca, que comprometia diretamente as produções agrícolas. Os produtos mais resistentes como mandioca e cana eram os únicos com origem na cidade, como contou o membro do Sindicato dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares de Souto Soares, Rosalvo Araújo.

Legal, né?! 

ONDE FICAR? 

Nós fomos acomodados na Pousada Palmeira Imperial, que fica na rua J J Seabra, conhecida como “rua da jaca”. 

A estrutura é bem simples e limitada. Os quartos não possuem ar condicionado, mas tem chuveiros térmicos. Já o café da manhã segue a linha “caseira” com pães, cuscuz, ovos, café e sucos. Zero frutas e frios. 

Não tem: Frigobar, ar condicionado, toalhas, serviço / limpeza  de quarto, piscina, sabonete e microondas. 

Tem: Chuveiro térmico (desligado ao segundo dia de estadia), café da manhã (simples e de baixo valor nutritivo), almoço e janta (geralmente macarrão, feijão, ovos, carne frita e saladas de alface, tomate, cebola e repolho). Se optar, podem repetir a noite o “café da manhã”. 

Nota: 2/10

OBS: funciona bem como local para passar a noite e seguir viagem no dia seguinte ao nascer do sol. 

VAMOS PASSEAR!

Começamos nosso roteiro indo conhecer a sede da Secretaria de Cultura e Turismo do município. Nos reunimos brevemente com o Secretário da pasta, Luciano Damasceno, para alinhar o roteiro desta trip.

Por volta das 14:30, partimos em direção a comunidade do Sítio Vistoso, onde existe um engenho para produção artesanal de rapadura e mel da cana. Eles cultivam a cana de açúcar, colhem, preparam para moagem, extraem o sumo e aquecem a 180° para que ele ganhe uma textura densa e que possa dar forma a rapadura. Por lá, encontramos Washington Teixeira (camisa cinza – foto), de 42 anos, que está no local há mais de 30 anos, dando continuidade ao legado do seu pai, Gerônimo Gaspar, de 87, que foi quem construiu o engenho há 50 anos. 

Depois de conhecer o processo para fabricação da rapadura e garantir a nossa por 8 reais o kg (média), partimos em direção a Casa de Farinha Comunitária da Rocinha. Por lá, encontramos seis mulheres da localidade com mais dois rapazes na produção, também artesanal, da farinha de mandioca. 

Eles cuidam de todo o processo, desde a escolha e colheita da raiz. Depois, eles lavam (máquina da foto), descascam, prensam e levam ao fogo para dar o ponto de cozimento próprio para o consumo humano. 

Em nossa segunda estadia em Souto Soares, tomamos café bem cedinho para dar início ao nosso turismo de aventura pelas serras. Pegamos a estrada rumo ao distrito de Cisterna, na comunidade Manoel Joaquim, a 34 km da sede do município. Nossa missão por lá foi conhecer as pinturas rupestres, uma recente descoberta que pode reescrever o passado e somar ao patrimônio histórico-cultural da cidade. 

Como diz o ditado: “saco vazio não fica em pé”, paramos antes para almoçar no Restaurante Damasceno, chefiado pela simpática Elza, que batiza com o sobrenome o estabelecimento. Lá encontramos uma comida caseira de qualidade com tempero da roça. Quem for se aventurar por essas bandas, fica a nossa sugestão. 

Esperamos o sol baixar um pouco e iniciamos a nossa trilha na companhia de três trilheiros que conhecem a região como a palma de suas mãos: Joaquim Roque, João Domingos e Francisco Marques, foram nossos guias. Equipados com galão de água e facão, abriram caminho na vegetação seca e espinhosa para chegarmos ao nosso destino. 

A caminhada é árdua, sobretudo sob o sol escaldante de 32°C que fazia na ocasião. Foram cerca de 30 minutos desviando de galhos secos e escalando rochas até chegarmos à Pedra Branca, local onde as pinturas estão. 

Os registros são bastante curiosos. Com características tribais e abstratas, as pinturas rupestres ainda não tiveram um estudo aprofundado e cuidadoso para precisar com mais detalhes suas origens, mas, de acordo com o professor, historiador e arqueólogo, Dr. Carlos Etchevarne, coordenador do laboratório de arqueologia da UFBA, estima-se que as pinturas sejam datadas entre seis a doze mil anos. 

Apesar do valor histórico, algumas áreas das pinturas rupestres foram degradadas com ação de queimadas e rabiscos por desconhecimento da importância dos registros. Os nossos três guias contaram que movem esforços há muito tempo para que haja preservação da área tanto pelos populares quanto pelos órgãos públicos competentes.

Um novo dia em Souto Soares e a nossa equipe acordou quase junto com o nascer do sol para explorar outros pontos da cidade. Ainda no distrito de Cisterna, fomos conhecer Olhos D’água, localidade que abastece a população e o gado com suas nascentes de água doce. As condições da caminhada foram bem parecidas com a do dia anterior: sol de rachar a cuca, solo rochoso e vegetação espinhosa foram algumas das intempéries que enfrentamos. 

Quase uma hora de trilha, chegamos a nossa primeira parada, e tivemos uma surpresa nada agradável: a nascente secou. Olhos D’água que um dia foi refúgio do sertanejo nos longos períodos de seca, hoje está vazia, sem vida.  Joaquim Roque, um dos nossos guias, atribuiu essa situação à falta de chuva que assola a região há meses. Veja as fotos do antes e depois 

Não desistimos e caminhamos por mais uma hora até chegarmos em outra nascente. Por lá, encontramos o mesmo cenário. “Caos”, disse Joaquim com semblante triste.

Nesse ponto da trilha, o cansaço já tinha tomado conta de nós. Mas, como bons aventureiros, continuamos firmes!  Ressignificando o ditado, “Quem está no sol é pra se queimar”.

Nossa última parada foi num conjunto de morros de pedra, ponto mais alto da região de Olhos D’água. Escalamos com ajuda de uma corda o “Morro da Liberdade”. Lá de cima é possível ter uma visão privilegiada da grandeza do lugar e suas características.

Finalizamos nosso longo passeio subindo até o topo do “Morro do Feliciano”. O nome é dado em homenagem a um senhor que, segundo populares, fez do lugar a sua moradia até o fim de sua vida.

Ufa! Incrível, né?! 

Quando sextou em Souto Soares, a atual gestão de cultura do município, organizou uma apresentação do Projeto Arte na Praça, que como o próprio nome diz, artistas locais, de todas idades, seguimento e estilos, ocupam o espaço com apresentações. Teatro, capoeira, música, humor… teve de tudo no anfiteatro que fica no centro. 

Para o secretário de Cultura e Turismo da cidade, Luciano Damasceno, este evento tem grande importância na valorização dos talentos locais. “ O projeto Arte na Praça está entre as metas do Plano Municipal de Cultura. Sempre inovando e agregando as manifestações artísticas que são mapeadas pela SECULTSS. Em 2018 ela migrou para algumas comunidades da zona rural e aqui na sede com várias intervenções artísticas em datas comemorativas. Em 2019 a gestão fixou na última sexta de cada mês a arte na praça. Com a pandemia houve a paralisação. E agora, com mais de 65% da população do município vacinada estamos retornando aos poucos”, disse o secretário.

GASTRONOMIA:

Embora já tenhamos dado um spoiler mais acima, quando apresentamos a comida de D. Elza, em Souto Soares não existe nenhuma receita própria. A comida é comum e tradicional – arroz, feijão, ovos, frango e carne de sol, geralmente frita. 

Um destaque é a saborosa coxinha de Maria Aparecida –  Cida – que fica à frente do Colégio Estadual de Souto Soares. Um ponto comercial simples, de única porta, e com atendente super simpática. Os sabores variam; carne, frango, mista, carne ou frango com queijo… O tamanho do salgado é o ideal. Não é massudo e é bem recheado. Custa R$3,00. Aí, já viu, né?! Salvou! 

❤️

Ela nos recebeu em sua casa e explicou que começou a vender a coxinha há 14 anos, ainda numa banquinha no portão do Colégio Estadual, depois de aprender a fazer o salgado com a cunhada. “Lia me ensinou a fazer coxinhas, e as clientes me ajudaram, com as críticas, a aperfeiçoaro salgado”.

Cida da Coxinha, tem 39 anos, é casada com Pedro, que atua como auxiliar de serviços gerais na Prefeitura de Souto Soares. Mais jovem, Cida trabalhou num bar onde “nasceu” sua iguaria. 

Um outro produto bastante consumido em Souto Soares, é o arroz vermelho, que embora não seja produzido na cidade, tem forte adesão dos munícipes. 

VOLTANDO AO ROLÊ: DONA BIA FOI A SURPRESA 

No domingo (19.9), pegamos 10 km de estrada de barro rumo a comunidade de Lagoa Nova, para conhecer a Srª Lindaura Anunciação,  chamada por lá de Dona Bia – apelido que ganhou por conviver muito com uma tia de mesmo nome que era muito peralta. Dona Bia, foi a maior e melhor surpresa que Souto Soares nos revelou. Linda, talentosa, artesã, mãe de 15 filhos, perdeu 4 e criou os 11 sob a força de ser uma mulher guerreira. Aos 88 anos, A T I V A, Dona Bia segue fazendo arte com a palha, cozinhando a própria comida, usa apenas remédio para labirintite, e ainda cuida do esposo, Seu Francisco Domingos, de 91 anos, com quem está casada há 73. Olha essa lindeza aí entre as filhas Eva (de branco) e Benedita (bermuda preta), que também é artesã das boas. 

Avessa à cidade grande, Dona Bia nunca esteve na capital baiana, mas, foi à São Paulo por 5 vezes visitar os filhos que moram por lá. “Não demorou, quis vim me embora. Saio daqui nada…” disse com a segurança e propriedade de quem viu Souto Soares nascer. 

Nascida no “Caminho de Segredo”, no que hoje é uma estrada que liga a sede de Souto Soares ao distrito de Segredo, ela chegou ao local antes até da emancipação política da cidade. “Estou aqui desde antes de se chamar Licuri” – primeiro nome da cidade. 

É num casebre de barro ao lado de sua casa que D. Bia cria seus artesanatos. Sentada no chão, com uma postura correta e invejável pra sua idade, ela trabalha por horas ao dia. Com a visão comprometida, o entrelace das palhas se tornou, para ela, uma questão de tato e intuição. A depender do pedido, D. Bia leva até 15 dias para finalizar uma peça de palha, tempo que levou para fazer uma esteira de quatro metros de largura e cumprimento, sua maior encomenda. Os valores podem variar de R$15 a R$150.

Conheça mais a história de Dona Bia, contada por ela mesma: https://www.instagram.com/tv/CUAp4UBFpXS/?utm_medium=copy_link 

Considerações: Ainda com o trade turístico despreparado, e aparentemente sem ações de implantação e melhoria a curto ou médio prazo, Souto Soares é uma cidade interiorana de hábitos diurnos e extremamente pacatos. Sem índices recentes de violência, pode ser refúgio de quem busca a quietude. 

Para garimpar “pontos turísticos” fizemos de tudo; trilha de nível 3 com mais de 4 horas de caminhada, escalamos grandes formações rochosas, visitamos estabelecimento na “sede”, jogamos conversa fora, andamos por estradas de barro na zona rural em busca de boas histórias… E podemos dizer, por fim, que o maior atrativo de Souto Soares, é mesmo o soutosoarense. Com destaque aos que chegaram por lá beeeemmmm antes de sua emancipação política, como contamos acima explorando a história de D. Bia. 

A cidade deve buscar, seguindo, inclusive, nossas dicas, novas ações de valorização do turismo local. Monumentos, novas praças, mapeamento das áreas de trilha, preparação de guias turísticos, apresentação de suas belezas naturais ao público externo e, sobretudo, investimento sério em serviço e infraestrutura das hospedarias. O simples não pode ser confundido com o descaso e normalização da ausência do básico. Já imaginou chegar num hotel / pousada e não ter ÁGUA disponível? Não receber toalhas, sabonetes e não ter a limpeza periódica dos quartos? Comer a mesma comida diariamente? Não ter acesso a frutas, frios e tubérculos? Pois, vivemos isso por lá. Entendemos a situação e compartilhamos conhecimento e experiência para melhoria e criação de plano de ação. Souto Soares saberá honrar seu povo e visitantes. 

Ficamos na Pousada Palmeira Imperial, e só posso dar boa nota à feijoada oferecida a nós no domingo (19.9), e aos cuidados e simpatia de D Graça, proprietária. Ela salvou pelo cuidado e compreensão dos feedbacks que demos. 

Souto Soares sofre uma terrível seca, e isso precisa ser levado em consideração. A seca trouxe poeira e pouca produção agrícola, obrigado os munícipes a importarem produtos que antes produziam. 

Agora, cá para nós, visite Souto Soares e conheça as pessoas, histórias, curiosidades, sua biblioteca municipal, abra os braços nos montes rochosos da zona rural, caminhe livre, coma a coxinha de Cida, a feijoada de D. Graça, a galinha caipira de D. Elza, e aprenda a viver com D. Bia.  Isso vale a viagem!!

Obrigado por tudo, Souto Soares! Voltaremos! 

Equipe Canal In 

Repórteres: Ricardo Henrique e Lucas Gomes

Editor: Ricardo Henrique 

Foto: Lucas Gomes e Ricardo Henrique – Foto do público no São João é de Gillian Medeiros

Apoio: Prefeitura Municipal de Souto Soares  / Secretaria de Cultura e Turismo 

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