Exclusivo! Frank Menezes concede entrevista ao Canal In e dispara: “Somos uma nação teledramatúrgica.”

 

 

 

Ator recebeu a equipe do Canal In em seu camarim e contou momentos importantes dos seus 35 anos de carreira e os seus novos planos.

 

 

Comemorando mais de 35 anos de carreira e o ator baiano Frank Menezes tem muita história pra contar e não poupou nenhuma delas. Com 56 anos de vida e esbanjando saúde e bom humor, o ator concedeu uma entrevista exclusiva para o Canal In no último sábado (1). Prolixo, como ele mesmo se define, conversou pouco mais de uma hora com a nossa equipe em seu camarim e falou abertamente sobre sua trajetória, o seu trabalho atual e os seu planos.

 

Nascido e criado em Salvador, o ator tem um currículo extenso. Atuou em 25 espetáculos, 3 novelas e diversas séries e filmes. Ficou mais conhecido por sua atuação na peça “A Bofetada” e seu personagem inesquecível na novela global “I Love Paraisópolis”, que emplacou o bordão “Favelaada”. Morando há quase 40 anos no mesmo bairro, Frank também sente os impactos da violência da capital baiana e não deixou de comentar sobre: “Acho Rio de Janeiro mais tranquilo que Salvador! “Eu já to na idade dos assaltáveis (risos). Tem lugares lá que eu posso andar sem  precisar olhar pra trás, aqui eu não sei se vou à praia sozinho”.

 

Acompanhe a entrevista:

 

Canal In: Frank, 35 anos de carreiras, muita coisa pra contar. Quais foram os momentos mais marcantes da sua trajetória?

 

Frank Menezes: É impossível não dizer que a peça “A Bofetada” foi uma mudança de vida muito importante no mercado baiano. Eu costumo dizer que o advento da televisão na década de 50 roubou o público que saía de casa para o teatro e cinema, e com isso teve uma queda em várias cidades no consumo do teatro. Cada cidade grande do mundo teve sua época de resgatar esse público que estava em casa, em Salvador, “A Bofetada” teve essa responsabilidade de tocar o público baiano e fazer com que eles percebessem que em sua terra tem teatro. Além de ter esse peso, o espetáculo abriu um espaço muito grande nacionalmente para a gente.

 

 

C.I. Na TV você participou de algumas novelas, a última foi I Love Paraisópolis, que inclusive lhe rendeu indicação a um prêmio. Como foi a experiência?

 

F.M. Foi muito bacana! A indicação ficou, mas antes dela, eu fui indicado em quase tudo, e uma semana antes de anunciar o vencedor, eu fui retirado de quase todas e só fiquei no “Prêmio Quem”. O mais engraçado é que eu fui indicado como revelação. É que eu me revelei depois de tanto tempo, né!? Eu fiquei esse tempo inteiro como uma crisálida (risos). Ironizou o ator.

 

C.I. Na TV você se sentia limitado ou confortável por exercer papéis somente cômicos ?

 

F.M. Eu já deixei de brigar pra provar que eu não sou apenas um ator cômico! Tem uma época que o ator faz questão de mostrar tudo que sabe, mas é cansativo brigar por isso. Teve um momento que disse pra mim: “Querem explorar isso? Querem me taxar de comediante? Então tudo bem, eu sou!” Mas o audiovisual me deu chances de mostrar outras coisas. Há algum tempo atrás eu descobri que fui indicado ao prêmio de melhor ator coadjuvante no festival de Montevidéu, no Uruguai, por uma cena de dois minutos em Capitães de Areia no papel de um delegado tirano.

C.I. Como você avalia o seu trabalho? Você é muito autocrítico?


F.M. Certa vez perguntaram ao Marco Nanini ao que se deve o fato dele ser um grande ator. Ele disse: “São várias qualidades, mas destaco três: talento, vocação e sorte”. E eu concordo plenamente. Eu tenho certeza do meu talento, tenho certeza da minha vocação de alimentar 35 anos de carreira e da minha sorte: a sorte de estar no lugar certo, nascido na família certa, que me apoiou. Vou colocar minha soberba pra fora (risos), Hoje eu tenho uma certeza muito grande do que eu trago de publicidade não é todo mundo que tem. Eu acredito que o drama pode ser colocado tecnicamente em cena, pra comédia precisa ter mais feeling, é muito difícil contar uma piada e fazer o tempo da comédia.

 

C.I. Você está sempre no eixo Rio-São Paulo, mas ainda é um grande agitador da cultura baiana. Por que decidiu não morar por lá?

 

F.M. Eu acho que no fundo eu nunca senti tanta necessidade. O próprio audiovisual já tinha me demonstrado que eu não precisava morar lá. Já teve uma época que muitos me encheram o saco pra isso. Além disso, se eu fosse pra outro lugar, ia ter que fazer teatro. Aqui eu posso entrar em cartaz e as pessoas já sabem com mais tranquilidade quem eu sou. Lá eu seria Juneca Purpurina (alter ego do seu personagem Júnior em “I Love Paraisópolis”), (risos).

 

C.I. Como era o teatro na sua época?

 

F.M. Tinha toda uma efervescência, mas, na minha época, quem fazia teatro era considerado via** ou pu**. Mas eu vim de uma família de músicos, e quando minha mãe soube que passei no curso livre de teatro ela vibrou comigo. Além disso, eu dei a sorte de ter sido assistido por grandes diretores de TV. Mas era muito difícil, ainda mais no período da ditadura. Dos meus 25 espetáculos, cinco eu fiz pra polícia federal, a gente tinha que apresentar um espetáculo todo montado para censura.

C.I. Vamos falar da sua peça em cartaz, “O Corrupto”. É o primeiro espetáculo que você escreve, por que demorou tanto tempo pra fazer isso?

 

F.M. Eu e o Marcello Prado (diretor) fechamos umas ideias muito legais, trocamos bastantes coisas, eu já tinha escrito pensando numa parte do figurino, Euro pires montou o cenário e o figurino de forma teatral, são quatro roupas que ao longo do espetáculo eu vou tirando. Há uns sete anos que vinha pensando em abordar esse tema. Não imaginaria que estivéssemos hoje na situação política reveladora que estamos. A corrupção já existia, mas agora que esta sendo revelada. O que eu quero tratar é o porquê a gente se indigna tanto e muitas vezes não para pra pensar que também fazemos muitas coisas erradas. Comecei a pesquisar e a descobrir coisas horrorosas que insistimos em pensar que é esperteza, como exemplo: Salvador é campeã nacional de fraude de carteira de estudante…

 

C.I. Isso é um dado?

 

F.M. Sim, é fato! A Bahia é campeã em apresentar atestado falso na segunda-feira. Uma fábrica em Jequié fechou por conta disso, chegava segunda e as pessoas não iam trabalhar.  Além disso, a Bahia é campeã em não pagamento de pensão alimentícia. Isso tudo fomenta essa nação de pessoas corruptas, que é uma coisa endêmica, ela faz parte de tudo e está disfarçada de vantagem. Todos só querem direitos, os deveres ninguém está preocupado. Eu pesquisei sobre isso, e o mais difícil da minha profissão é fazer piadas com isso.

 

C.I. Agora que você se arriscou a escrever e pegou gosto, tem coisa nova vindo por aí ?

 

F.M Eu não sei ainda o que, mas tem coisa vinda por aí sim. Eu queria falar de nós, seres humanos, pegar o que é necessário ser falado. Eu queria falar do lixo, das condições humanas, e temos muitos exemplos aqui.  Entre a cidade alta e a cidade baixa o povo só conhece a parte rica, o outro lado é praticamente esquecido. Nessa área tem encostas e invasões onde pessoas vivem. Me lembro que em uma gestão de um prefeito, ele conseguiu tirar as pessoas de lá e colocar em casas seguras, mas em um trabalho de pesquisa que fiz para fazer o filme Quincas Berro D’água, os próprios moradores me contaram que as pessoas não queriam sair de lá para não pagar dívidas de água ou luz. Estou pensando em fazer algo voltado pra isso.

 

C.I. Frank, foi um prazer entrevistá-lo

 

F.M. Obrigado vocês!

Frank está em cartaz com espetáculo “O Corrupto”, até o dia 29 de setembro no Teatro Módulo, em Salvador. Vale muito a pena conferir!

 

 

Equipe Canal In

Produção / Edição: Ricardo Henrique

Repórter:  Lucas Gomes

Fotos: Reginaldo Silva / Canal In

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